Bira abriu vagarosamente o envelope que o carteiro enfiou por baixo da porta, e começou a ler a carta. Era de seu irmão que continuava morando em sua cidade natal, no interior de Mato Grosso. Trazia notícias ruins sobre a saúde de seu pai. O velho estava perdendo rapidamente a lucidez e começando a agir de maneira confusa e temerária, na condução de seus negócios. A família estava solicitando sua presença em Águas Claras para avaliarem a situação. A ideia geral era interditar juridicamente o Pai, e proteger o patrimônio familiar. Bira deixara sua terra há dez anos, mudando-se para São Paulo. Tinha na época vinte e um anos, e queria estudar. Seu pai foi contra sua partida e não lhe deu recursos para a viagem. Seguiu magoado, tinha trabalhado muito na fazenda e quando quis partir não levou nada. Conseguiu um emprego de garçom com ajuda de um conterrâneo que já morava na cidade grande, e sua vida voltou a entrar nos eixos. Estudou direito e passou num concurso público para auditor da receita Federal. Tinha contatos esparsos com a família e só tinha voltado uma vez para uma rápida visita por ocasião da morte da mãe. Agora vinha essa notícia tira-lo de sua zona de conforto. Resolveu ir para não ser omisso, afinal já perdoara o pai há muito tempo.

               Uma semana depois seguia num Jeep de seu primo Calil que o apanhara no aeroporto de Cuiabá, em direção a Águas Claras. Ao chegar na presença do pai, esse o fitou longamente com um olhar sem brilho, e não deu sinal de reconhece-lo. “É o Ubirajara pai, ele veio fazer uma visita” disse Dalva sua irmã. O ancião estendeu a mão em direção ao filho e disse “Muito prazer, eu sou o Genésio, dono da fazenda”. Bira emocionou-se. Seu Pai estava muito magro e enfraquecido. Fora outrora um homem forte, disposto, enfrentando a lida diária tal qual os peões que contratava. A viuvez, no entanto, cobrou seu preço. A partir da morte da mulher o velho patriarca “murchou” estiveram juntos mais de cinquenta anos. Não conseguiu se reerguer nem fisicamente nem mentalmente. Desinteressou-se pelos negócios e pela própria vida, enfileirando prejuízos em transações grandes ou pequenas, daí a preocupação em interdita-lo. Olhando o pai naquela posição de fragilidade, Bira foi acometido de profunda tristeza pois não adiantaria mais dizer-lhe que o amava. Então curvou-se e deu-lhe um beijo carinhoso, o velho fazendeiro nem se moveu. Bira afastou com os olhos cheios de lágrimas e foi se reunir com seus irmãos. Teriam mesmo que tomar aquela providência que a princípio lhe parecera cruel, mas que agora entendia ser para a sua proteção.  Na caminhada até a sala percebeu que seu amor pelo Pai nunca diminuíra, mas mesmo assim independente do amor que sentia, era obrigado a concordar com aquela medida tão amarga.

AVP/AGO/2019

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