Aos poucos a vizinhança foi se acostumando com aquele homem de pele escura, mal vestido, com aparência de mendigo, que dormia sob a marquise de um prédio abandonado da rua 42, próximo a minha casa em Maringá. Chegava por volta das seis da tarde,  trazendo o que parecia ser todo o seu patrimônio. Uma mochila, com algumas panelas velhas penduradas, um cobertor surrado e uma pequena pochete que trazia junto ao corpo para os documentos e alguns papeis. As vezes, quando o tempo ajudava, era visto na madrugada tomando banho no chafariz da praça. Tinha um português muito bom para um “sem teto”. Acostumamos a pensar nele como um louco inofensivo, seu nome era Gerson. Nosso primeiro contato ocorreu por acaso. Eu atravessava a rua, quando ele me abordou pedindo uma caneta para terminar uma carta. Remexi os bolsos e encontrei uma BIC que sempre trazia comigo. Fiquei curioso e não me contive. “Para quem você escreve cartas?” O homem fez uma longa pausa, depois me olhou nos olhos e disse “Se tiver tempo sente-se aí que vou lhe contar uma história”. Escreveu mais umas duas frases na carta, assinou, dobrou o papel e enquanto me devolvia a caneta começou a se abrir. “Escrevo mas não envio as cartas, não sei mais o endereço, já faz muito tempo. Não sei mais da minha família. Acho que sou do Rio de Janeiro, mas não tenho certeza. Tenho apenas alguns flashes de memória. O nome de minha mulher Marília, é das poucas coisas que me lembro. Vivíamos numa casa bonita, perto de uma estação de metrô, mas não me lembro da rua, número nada nada, por isso não envio as cartas. Acho que não temos filhos. Ou será que temos?” Eu estava cansado e com fome, mas achei que aquele homem precisava muito de mim naquele momento, então fiquei impassível ouvindo sua história, e pensando numa maneira de ajuda-lo. Continuou falando por mais de meia hora. Era uma narrativa confusa, e não consegui captar mais nada. Levantei-me fui até a padaria da esquina, comprei pão e mortadela, uma garrafa de refrigerante, levei para ele, me despedi e fui para casa. Contei para minha mulher que ao fim me disse. “Amanhã você volta lá e tire uma foto dele, vamos postar nas redes sociais”. De posse da foto pedi minha filha de catorze anos para me ajudar a “viralizar” na internet acrescida do nome, altura estimada, cor da pele, idade aproximada, e meu endereço eletrônico para contato. Nos dias seguintes recebi muitos contatos falsos, com brincadeiras de mau gosto e já estava quase desistindo quando chegou uma mensagem de Marília, com telefone para contato. Ao ligar tive certeza de que era a mulher de Gerson. Segundo suas informações ele era cirurgião pediátrico num hospital em Duque de Caxias. Após um insucesso cirúrgico em que perdera um pequeno paciente, foi submetido a um processo no Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro e considerado culpado. Entrou num estado de depressão muito intenso e um dia simplesmente desapareceu. Virou um andarilho e saiu pelo País vivendo da caridade alheia, até ser encontrado vários anos depois aqui no interior do Paraná. Marília chegou dois dias depois para buscar o marido. Fiquei feliz pelo seu emocionado reencontro com a família, e extremamente impressionado com a força das redes sociais. Quando utilizadas para o bem, essas ferramentas prestam um inestimável serviço de utilidade pública. A volta para casa fez Gerson aos poucos se recuperar e voltar a trabalhar. Nunca mais quis operar, e hoje exerce Clínica geral no Rio de Janeiro. Nunca mais o vi, mas nos falamos por telefone, geralmente por volta do Natal. Ah, na época não tinham filhos, agora têm um casal. Marília deu meu nome ao menino “Diomedes”, é muita honra!

2 Comentários

  1. Fantástica a história, parabéns ao autor, dá um filme com certeza! Tem muita gente boa nas ruas, pessoas que perderam tudo e se recusaram a entrar no crime! Como médico que nunca fez medicina pelo dinheiro, me pergunto como chegamos a esse estado de coisas, onde a solidariedade está cad vez mais ausente e distante, como o mundo pode ficar tão mesquinho?

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