Nunca gostei muito das aulas de português, exceto as de leitura e interpretação de textos. Acho que tinha a ver com o professor Geraldo da Paixão, homem simples, dedicado, e com um profundo amor pelo que fazia. Reforçava diariamente a seus alunos, a importância de ler com atenção, interpretar, e reproduzir os mais variados tipos de texto. Não importava se prosa, poesia, ficção ou realidade, textos históricos, bíblicos, o que fosse, seu esmero era o mesmo ao ensinar seus alunos. Fazia perguntas de surpresa para avaliar o grau de compreensão. Mandava repetir com as próprias palavras, e se não ficasse satisfeito o aluno ficava lhe “devendo” para ser cobrado quando lhe aprouvesse. Como não sabia quando  seria cobrado, via de regra o aluno tratava de estudar. Mestre Geraldo, não se preocupava muito com as notas mensais dos alunos. Mas, avisava desde o início do ano, que seria muito rigoroso na prova final. Quem chegasse lá precisando de nota alta estava em maus lençóis. Não tinha perdão, se não conseguisse por méritos próprios não adiantava chorar, era bomba na certa. Falo do professor com admiração e respeito. Estava sempre disponível para ajudar os alunos sempre que fosse solicitado. Um dia, enquanto fazíamos um exercício em classe, o mestre parou junto a minha carteira por alguns minutos e disse “venha falar comigo depois da aula”. De pronto fiquei preocupado e quando soou a sirene, me dirigi a sua mesa. “Você parece gostar muito da minha matéria. Quero que seja meu auxiliar ajudando alguns colegas com mais dificuldade. O que acha?” disse ele. Feliz e surpreso aceitei a incumbência. Fizemos uma boa parceria até que deixei a escola três anos depois. Uma coisa curiosa é que ele gostava muito de um poema de Arthur de Azevedo, chamado “VELHA ANEDOTA”,  praticamente obrigava todos os seus alunos a decora-lo e declama-lo perante a classe. Uma das maneiras de saber se uma pessoa estudou na Escola Técnica de Goiânia na década de 60, é manda-lo declamar esse poema. Peço licença para transcreve-lo abaixo, em homenagem  ao grande mestre.

VELHA ANEDOTA  (Arthur de Azevedo)

Tertuliano, frívolo peralta

que foi um paspalhão desde fedelho

Tipo incapaz de ouvir um bom conselho

Tipo que morto não faria falta.

Lá um dia deixou de andar à malta,

E, indo à casa do pai, honrado e velho,

A sós na sala, diante do espelho,

À própria imagem disse em voz bem alta:

– Tertuliano, és um rapaz formoso!

-És simpático, és rico, és talentoso!

-Que mais na vida se te faz preciso?

Penetrando na sala, o pai sisudo,

que por trás da cortina ouvira tudo,

Severamente respondeu – Juízo!

Homenageio a todos os mestres que tive, na pessoa do professor Geraldo da Paixão que há muito partiu, mas deixou um grande exemplo de amor à arte de ensinar.

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