Passeando de barco pela lagoa de Mundaú em Maceió, puxei conversa com o barqueiro. “Como é o seu nome amigo?”, ele sorrindo com aquela alegria natural dos nordestinos disse “Berenaldo, e tenho certeza que tu não vai esquecer vai? quantos Berenaldo tu já encontrou na vida?” Pensei alguns segundos e disse “você é o primeiro”.  Na conversa que se seguiu, perguntei a Berenaldo se ele nunca tinha tido vontade de migrar para São Paulo como milhões de conterrâneos seus. “Já tentei uma vez” disse ele, e me contou essa história.

          “Nasci e me criei numa cidade pequena, Girau do Ponciano, ali pelas bandas de Arapiraca. Terra seca da peste! Quando completei dezoito anos escrevi a Ribamar, um primo meu que mora em S.Paulo, dizendo de minha intenção de me mudar para lá. Com a aprovação de Ribamar no mês seguinte entrei num ônibus  desses clandestinos e quatro dias depois estava em São Paulo. Era dia três de Julho, nunca me esqueci porque quando desci do ônibus tava um frio arretado. Pensei que meus ossos iam se partir. Pedi ao Padre Cícero para me ajudar, e de longe avistei meu primo.   Antes de cumprimentar Ribamar já disse logo “Primo, que diabo de frio da moléstia é esse, homem?” Ele riu e disse “oxe! tu escolheu a data errada, estamos no inverno. Vai ficar assim até meados de agosto”  e me entregou um agasalho pois já previa a situação.  Vesti a jaqueta e melhorou um pouco, mais ainda sentia frio nas mãos, pés, e nas pernas pois a calça era de pano fino. Ribamar disse “Bora andá, se ficar parado o frio aumenta” e saiu apressado. Eu o seguia de perto e quanto mais andava  mais o frio aumentava. Por sorte descemos umas escadas e embarcamos num trem que parecia uma minhoca andando por baixo da terra. O frio diminuiu um pouco, tinha muita gente no vagão. Finalmente chegamos ao Grajaú, bairro onde Ribamar morava. Fui tumá banho, pois embora Ribamar não tenha dito, eu me sentia uma jaratataca depois de quatro dias de viagem. A água era morna, mas quando saí do chuveiro, comecei a tremer feito vara verde corri para o quarto e me meti debaixo das cobertas até parar de tremer. No dia seguinte Ribamar me chamou cedo e fomos tumá café na padaria da esquina. O frio tava matando. Aí apareceu uma novidade. Quando eu falava, saía fumaça de minha boca, de minha venta. Fiquei vexado, nunca fumei na vida. Tentava disfarçar cobrindo a boca com a mão quando falava. Entramos na padaria e Ribamar pediu um café pingado e um “racha e brea” que logo descobri que era um pão francês passado na chapa com bastante manteiga. Pedi o mesmo. Um cachorro veio deitar encostado nos meus pés. Incomodado, dei um chute no cachorro e ele deu um latido comprido “Auuuuu” aí percebi que saiu fumaça da boca do cachorro. Então pensei cachorro não fuma, isso deve ser outra coisa. Também percebi que não era só eu, mas todas as pessoas. Parei de ficar vexado.  Ribamar já tinha arranjado uma vaga para mim no obra em que estava trabalhando. Trabalhei ali o justo tempo de juntar um dinheiro para a passagem de volta.  Chegando a Maceió, arranjei esse emprego e fiquei quieto. Ganho pouco, mas não tenho que enfrentar um clima daquele. Deus me livre! Meu lugar é aqui.

              A conclusão que tirei, é que Berenaldo desistiu diante do primeiro obstáculo. Mas ele não estava errado.  Simplesmente não quis pagar o preço que milhões de nordestinos pagaram. E se todo nordestino migrasse para São Paulo, quem estaria dirigindo aquele barco, naquele passeio tão agradável. Por tanto, as coisas dão certo para uns e não dão para outros. É questão de acertar o seu espaço, e se sentir feliz com ele. Esse era o caso de Berenaldo, que parecia feliz, sem ter a menor saudade de São Paulo.

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