Suely chegou ao trabalho antes das seis da manhã. Era enfermeira no centro cirúrgico do hospital Camilo Dantas no centro de Jundiaí. A primeira cirurgia do dia era hérnia de disco e seria realizada pelo doutor Daniel, as seis e meia. Tomou café rapidamente e foi preparar a mesa com os instrumentos cirúrgicos. O médico era um cirurgião jovem, mas já renomado e muito exigente. Chegou pontualmente e começou a verificar se estava tudo certo e se estavam todos a postos. Notou que o anestesista ainda não tinha chegado, e o paciente ainda não estava na sala. Pronto, foi o bastante para ele perder as estribeiras. Encolerizou-se de tal forma que começou a desacatar a todos, falando palavras chulas e de baixo calão. Suely tentou acalmar os ânimos e aí sobrou para ela. “Sua incompetente” gritou o médico “porquê não tomou providências, você é a enfermeira chefe do centro cirúrgico. Isso aqui está uma bagunça, nunca trabalhei em lugar pior” Gritava, gesticulava e ofendia todo mundo. Nisso chega Dr. Fidélis, o anestesista, entrou de mansinho na sala, vendo Sueli com cara de choro, e o cirurgião fazendo todo aquele espalhafato dirigiu-se a ele com calma, “O que está acontecendo aqui Daniel? Porque essa brabeza toda?“ O homem se exasperou mais ainda, “Você ainda pergunta? não sabe respeitar horário não? Estou de saco cheio de marcar cirurgia e nunca começar na hora, vocês são uns irresponsáveis. Se continuar assim não vou mais operar nesse hospital. Vou me queixar a direção”.  Uns vinte minutos depois, a cirurgia começou, com um clima pesado, ninguém falando com ninguém. A paciente, uma mulher de quarenta e nove anos, vinha queixando-se de fortes dores na coluna lombar, irradiando-se para a perna direita, que a impedia de andar e trabalhar. Fora convencida pelos filhos a se submeter a cirurgia, e esperava uma recuperação rápida. A certa altura, o cirurgião desconcentrado pela raiva, aprofundou o bisturi mais do que o normal, e lesou uma artéria importante, que devia ser preservada. Assustado, tentou debelar o sangramento, gritou com o auxiliar, um residente do quarto ano “pince a artéria seu idiota, você é oligofrênico? “A incisão era pequena, e o auxiliar teve grandes dificuldades. “A pressão está baixando muito” avisou o anestesista ligando mais um frasco de soro com drogas vasopressoras e mandando chamar o banco de sangue. Suely movimentava-se com destreza, aspirando, trocando as compressas e tentando manter o campo cirúrgico o mais limpo possível. O cenário parecia um campo de guerra. O banco de sangue chegou e iniciaram a transfusão. Nesse meio tempo, Daniel e o auxiliar suando em bicas, ampliaram um pouco mais a incisão e finalmente conseguiram pinçar o vaso que sangrava. Respiraram fundo e então foram corrigir a hérnia da paciente.  Embora estivesse estressado ao máximo, durante aquela intercorrência Daniel começou a pensar na importância da equipe. De nada valeria todos os seus títulos, fellows e outros comprovantes de especialização. Sem o esforço de todos, teria perdido a paciente.  Desse dia em diante transformou-se num ser humano melhor e mais humilde. Ao término da cirurgia, reuniu a equipe toda e se retratou pedindo desculpas e reconhecendo a importância de cada um. Perdeu por completo aquela postura de semideus, tão própria dos médicos jovens que acreditam ter poderes e soluções para tudo. Esses profissionais prepotentes e agressivos, geralmente procedem assim para disfarçar insegurança, e raramente reconhecem que o diploma que recebem é simplesmente uma autorização oficial para começarem a aprender. Daniel tomou por ensinamento que humildade e agua benta não fazem mal a ninguém.

 

 

 

 

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