A garotada brincava alegremente durante o recreio. Um improvisado jogo de futebol se desenrolava na pequena quadra de cimento. Dois times corriam freneticamente atrás da bola. De repente alguém gritou “corre gordo!”. o pequeno Rafael, de oito anos, parou de correr, virou-se para o autor do insulto e disse “Gordo é seu cu! vou reclamar para a tia Sandra”, e correu em direção a diretoria, onde já chegou chorando para relatar o ocorrido. A diretora ouviu, consolou o menino mas não deu muita importância pois era um fato repetitivo, e no fim as próprias crianças se acertavam. Chegando em casa Rafael contou ao Pai e pediu para mudar de escola. Não suportava mais ser chamado de “gordo”.  Encolerizado Fernando, policial aposentado, de gênio forte, ligou para a escola, espinafrou a diretora e ameaçou intervir pessoalmente para defender o filho. Alguns dias depois, foi buscar o Rafael na escola, encontrou com Carlos, pai de Fred, o outro garoto, e aproveitou para tirar satisfações. “Seu filho está chamando o meu de gordo,  se continuar fazendo isso vou dar um corretivo nele”. Carlos ainda tentou contemporizar, mas os ânimos se exaltaram, então ele disse “Você não é homem para bater no meu filho. Se fizer isso vai se ver comigo”. Essas sementes uma vez plantadas podem preceder a tragédias. Com a repetição do fato, os pais voltaram a se enfrentar desta vez de forma mais violenta. Fernando perdeu a razão e deu um tapa em Fred, que ofendera seu filho novamente. Carlos não se contendo foi até o carro pegou uma arma e baleou Fernando no peito que mesmo prontamente socorrido, já chegou morto ao Hospital. Carlos foi preso em flagrante por uma patrulha policial que passava. Com certa frequência vemos nos jornais e na televisão, episódios igualmente ou mais violentos, perpetrados por crianças e jovens que se dizem vítimas de bullying. Jovens que invadem escolas e atiram indiscriminadamente em colegas e professores. Pessoas que retornam a antigos empregos e atentam contra a vida dos ex-colegas. Tudo em nome desse conceito moderno chamado bullying, que até vinte anos atrás passava despercebido, e o tempo acabava resolvendo as diferenças. Embora o caso dos dois garotos tenha culminado nesse trágico desfecho, uma semana após o velório, eles já estavam brincando novamente. Depois da aula Fred chamava o amigo “vem gordo, vamos brincar de pique esconde.” E os dois saíam correndo para encontrar o resto da turma.

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