O PEQUENO KADIR

             Surgindo da multidão como um raio, o pequeno Kadir (nome fictício). Saltou para o vagão do metrô na estação Taksim em Istambul, um segundo antes do fechamento da porta, trazendo nas mãos duas belas maçãs. O homem esbaforido chegou atrasado e ainda bateu algumas vezes no vidro enquanto via o menino morder uma das frutas. Estávamos nas proximidades do porto e me lembrei de ter visto algumas famílias pobres pedindo ajuda aos transeuntes. Tinham muitas crianças, então supus que aquela fosse a origem de Kadir.  Fui informado pelo guia, que se tratavam de ciganos, uma minoria nômade da população turca de origem discutível. Já li que os primeiros ciganos vieram da Índia, mas não sei, pois também já ouvi dizer que vieram da Hungria. Mas o certo é que esse povo errante vive pelo mundo há muitos séculos, cercados de preconceitos e desconfiança. Mantêm sua história envolta em mistérios, com poucos registros escritos. Os ciganos que me lembro na minha infância, viviam em barracas armadas em terrenos públicos ou privados das cidades brasileiras. Não pediam permissão, pois provavelmente seria negada, então era assim. De um dia para o outro podia aparecer um acampamento de ciganos na sua rua, ou numa praça próxima. Isso era tido como mau agouro. As mulheres se espalhavam pela cidade vendendo tachos de cobre, e “lendo a sorte” na mão das pessoas. Os homens tinham fama de espertalhões, velhacos para negócios e de caráter duvidoso. Ficavam pelas barracas, ou misturavam-se à população propondo jogos de cartas ou pequenos negócios quase sempre arriscados. Eram mestres em ludibriar.  Teve uma época em que os ciganos da minha cidade melhoraram significativamente de vida e passaram a ocupar bela mansões agrupadas numa mesma área que logo ficou conhecida como “bairro cigano”. Passaram a ter negócios, lojas, garagens de automóveis, estacionamentos e outros. Mas nem assim venceram a resistência da população. Os imóveis das quadras adjacentes tiveram forte desvalorização, ninguém queria morar nas vizinhanças. E o curioso é que mesmo vivendo em boas casas, muitos deles não abriam mão de uma barraca no quintal onde promoviam festas que duravam dias. Tocavam músicas deliciosas de seu folclore e suas danças eram lindas. Ainda menino, fui contaminado com uma certa magia que aquela vida exercia sobre mim. Não cheguei a ter amigos ciganos, nem sei ao certo porquê. As crianças ciganas saíam pelas ruas, pedindo, praticando pequenos furtos. Por isso os pais geralmente não permitiam que seus filhos se misturassem com eles. Isso aumentava o fascínio.  Enquanto o metrô se movia, fiquei pensando se algum pequeno Kadir poderia ter sido meu amigo naquela época. Teríamos feito grandes peripécias, com certeza. Na estação seguinte a porta se abriu e Kadir desapareceu tão rápido quanto surgiu.

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