Elisa caminhava diariamente os dois quilômetros que separavam sua casa da escola de chão batido  onde ensinava de tudo para cerca de quarenta crianças, pensando em como melhorar a situação do ensino tão precário naquele grotão cearense. Sentia-se frustrada. Ela própria, tinha segundo grau incompleto, cursado no Crato, a cem quilômetros dali.  Os alunos chegavam a pé, de bicicleta, montados em jegues, ou numa kombi velha caindo aos pedaços oferecida pela prefeitura. As idades variavam de cinco a doze anos. Dalvina a auxiliar  de serviços gerais, funcionária antiga, cuidava da limpeza, merenda, disciplina e tudo mais. A diretora morava em Juazeiro, vinha a cada três meses fazer os relatórios para a secretaria da educação. Dizem que era prima de um político e já estava no cargo há nove anos. Elisa requisitava com frequência pelo menos mais um professor para ajuda-la mas sem resposta, já estava perdendo as esperanças. Um dia, ouviu batidas insistentes na porteira que dava acesso ao galpão da Escola. Dalvina foi ver quem era e voltou desconfiada. “É um rapaz que veio para ajudar você. Disse que é professor de matemática”. Elisa ficou radiante, fosse quem fosse haveria de ter serventia, e a situação não dava margem para escolhas. Recebeu o jovem com alegria e o apresentou aos alunos. “Gente, esse é o professor Ribamar, ele vai nos ajudar por uns tempos”. No fundo pensava que quando soubesse da situação da escola, ele iria embora. Tinha uns vinte e poucos anos, mulato, com estatura média e cabelo encaracolado. Um pássaro tatuado no braço esquerdo e uma mochila surrada, completava aquele visual meio exótico. Filho de família rica, estava ali realizando uma missão que se auto impusera durante o curso superior de matemática. Decidiu que iria disseminar o que aprendera entre os alunos carentes do interior. Foi bom estudante, e assim que se formou pôs o pé na estrada e agora estava ali numa paupérrima escola no sertão do seu Estado. Elisa expôs as dificuldades.  Mas o rapaz estava disposto a enfrentar o desafio. Moraria ali num pequeno cômodo que servia de depósito até encontrar um lugar melhor. No primeiro ano dedicou-se a melhorar as condições físicas da escola. Pedia doação de madeira, cimento, brita, e tudo o que pudesse utilizar, uma cadeira aqui, uma mesa ali, a população foi abraçando a causa. Auxiliado pelos alunos maiores foi mudando o visual da escola, cimentou o galpão, ajeitou mesas e cadeiras para todos. Enquanto isso preparava um plano para o ensino da matemática para aquelas crianças. Teve que começar quase do zero. apenas uns três ou quatro possuía alguma base. o Resto era escuridão total. “Melhor, assim todos irão progredir juntos”.  A facilidade que Ribamar tinha com os números era incrível além de uma didática que dava inveja. Passada a fase básica, alguns alunos revelaram uma afinidade rara com a matéria. Separados em um grupo menor, começaram a estudar com mais afinco. Ficavam depois do horário, nos fins de semana, feriados. Aprendiam com avidez aquela que era considerada a mais difícil das disciplinas. Mas nem tudo foram flores. Logo Ribamar começou a enfrentar hostilidades do prefeito, vereadores, e outros políticos e seus puxa-sacos. Ciumeira pura.  Foi acusado de estar se metendo onde não era chamado. Fizeram gestões na secretaria da educação para removê-lo de lá. Só aí descobriram que ele era simplesmente voluntário, não tinha vínculo com a secretaria, e muito menos recebia pagamento. Se mantinha com seus próprios recursos. Foi ficando apesar dos protestos dos políticos. Um dia, Ribamar soube de uma competição chamada “Olimpíadas de matemática”, procurou informar-se em detalhes e em seguida inscreveu quatro de seus craques na prova seletiva de Fortaleza”.  Foram aprovados, e seguiram para a fase seguinte em São Paulo, de onde um deles voltou campeão. A lição que fica, é que nada resiste ao trabalho. Nas condições mais adversas, com muito trabalho e entusiasmo Ribamar fez o que parecia impossível. Considerando então sua missão cumprida naquele lugar, e já contando com outros para substitui-lo. despediu-se e foi procurar outros desafios.  Tinha uma grande  vocação para ensinar e uma imensa vontade de ajudar o próximo.  Miremos no exemplo.

 

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