Doutor Romão fechou a porta do posto de saúde pontualmente as seis da tarde. Em seguida repetiu a rotina de mais de quarenta anos naquela pequena cidade. Passou no supermercado, comprou algumas provisões para sua casa, um bilhete de loteria, mania que trazia desde a juventude, sem nunca passar nem perto  de ganhar. Conversou com alguns conhecidos, quase todos seus clientes. Finalmente foi para casa e jogou-se nos braços de sua companheira dos últimos tempos, a solidão. Convivia com ela há seis anos, desde que sua mulher perdera a batalha para o câncer de mama. Não quis casar novamente, e mergulhou numa dedicação exclusiva à sua profissão. Estava cansado naquela noite, dormiu sentado em frente a televisão ligada num noticiário qualquer.  Subitamente acordou com batidas na porta, “Acode doutor, balearam o prefeito”. Levantou-se de um salto, pegou sua pequena maleta e com passos trôpegos pelo sono partiu para atender a emergência. Ao entrar no pequeno hospital teve a impressão de ter chegado tarde. O prefeito  deitado na maca, estava pálido como uma vela, tinha perdido muito sangue e parecia morto. Ao examina-lo viu que tinha sinais vitais embora débeis. Entregou-se rapidamente a tarefa de estabilizar o quadro e dar-lhe a chance de ser transferido para um centro maior. Pegando um acesso venoso, infundiu soro e outras drogas vasoativas para deter a queda da pressão arterial. Em pouco tempo notou sinais positivos. O paciente parou de piorar. Foi avisado que a ambulância do hospital de urgências de Rio verde estava a caminho. Por fim relaxou um pouco, sentou-se e ficou observando o pequeno monitor cardíaco que mantinha um ritmo regular. Começou a pensar  nas muitas vezes em que estivera naquela situação. No interior é comum aquele jeito de acertar as contas, na violência. Ajeitou-se na cadeira, resolvido a esperar pela ambulância. Ficaria ali cuidando do prefeito, até transferi-lo para a responsabilidade de outro medico. Inclinando-se para regular o gotejamento do soro, notou que o paciente ficou subitamente agitado, como se quisesse se levantar. Seus olhos estavam esbugalhados. Olhando por sobre o ombro direito  o velho médico viu o vulto do pistoleiro que entrara silenciosamente no quarto, ao mesmo tempo que ouvia sua ordem “Encoste na parede e não se mexa doutor, vim terminar o serviço”.  Ajoelhou-se devagar enquanto ouvia os cinco disparos. Ficou ali ao lado do cadáver até a chegada da polícia, sentindo uma profunda sensação de inutilidade e impotência. No dia seguinte abriu a porta do posto de saúde pontualmente as oito da manhã. Vida que segue.

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