Era domingo, já quase anoitecendo. Eu brincava com meu filho mais velho, na época com um ano e meio mais ou menos, chutando uma bola na grama de nosso pequeno jardim. Feliz com a oportunidade de interagir com o garoto, pois naquela época eu viajava muito, e as vezes ficava a semana fora de casa. Quando a bola foi perto da grade, percebi um homem branco, calvo de meia idade passando numa bicicleta. Acenou com a cabeça me cumprimentando e seguiu. Acompanhei com o olhar e vi quando ele deu meia volta e parou na minha porta.  “Boa noite” disse ele encostando-se na grade, e prosseguiu “Eu ia passando  e quando vi o senhor, notei que sua aura está muito carregada”. Surpreso  perguntei “Aura? que diabo é isso?, aqui não tem ninguém com esse nome”. Então ele me disse que toda pessoa está circundada por uma aura de energia, e que através de suas cores é possível que outras pessoas com atividade mediúnica, avaliem seu estado de espírito e alerte para eventuais ameaças  à sua integridade física e mental. E continuou sua premonição, “O senhor está pretendendo viajar por esses dias?”. Pensei comigo, amanhã cedo, mas não vou dizer a ele. Achando a conversa meio atravessada reforcei que não acreditava em nada daquilo. Já montando na bicicleta para partir ele desferiu o morteiro “Acreditar ou não é problema do senhor, mas se tiver pensando em viajar não viaje, estou prevendo desencarne, e até hoje não errei uma”. Pronto, lá se foi o meu sossego. Eu que sempre me achei muito seguro, jantei mal, dormi mal e ao me levantar para viajar me sentia estranho, no fundo acho que era medo. Beijei minha mulher e meu filho pensando se não seria a última vez. Metade de mim queria desistir, mas a outra mais sensata puxou a responsabilidade para si. “Deixe de ser besta, você um homem letrado, doutor, se deixando influenciar pelo primeiro que passa falando bobagem”. Envergonhado por fraquejar, me enchi de brios e pus o pé na estrada.  Ainda estava sobressaltado. Cada ultrapassagem que fazia, ou quando cruzava com outro veículo não conseguia evitar o pensamento “Será que é agora? vou bater, ou sair da estrada e capotar?”  A uma certa altura, avistei ao longe um caminhão trazendo um trator na carroceria então pensei “Será que vou bater no caminhão, ou o trator vai cair em cima de mim?”.  A estrada parecia mais longa do que nunca, e de susto em susto cheguei finalmente ao meu destino duas horas depois. Parei o carro, fiz uma oração agradecendo por chegar são e salvo, e deletei aquela conversa da minha mente. Faço o mesmo trajeto há quarenta anos, e nunca tive um pequeno problema, mas pelo sim pelo não carrego um pequeno patuá, acho que ajuda na proteção. Nuca mais vi o tal “profeta’, talvez ainda esteja por aí assombrando em outras freguesias.

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