Essa história remonta a segunda metade do século dezenove no tempo da escravidão. Uma época sombria em que seres humanos eram legalmente “donos” de outros. As custas de castigos os subjugavam e mantinham presos  nas propriedades urbanas ou rurais. Era lei de obediência cega ao seu senhor. Nesse ambiente destacava-se a figura do feitor. Ele era o responsável por cuidar da disciplina dos escravos, mantendo-os na linha, produtivos e subservientes. Dimas era um desses, disputado pelos fazendeiros de café, e pelos proprietários de garimpos de Minas Gerais. Seu atributo principal era sua grande crueldade. Raramente passava um dia sem aplicar dúzias de chibatadas em escravos amarrados ao tronco. Tinha um coração de gelo. Dizia abertamente que os negros não tinham alma. Toda manhã contava e conferia os escravos da propriedade, e um dia deu por falta de Omaré, um negro alto e forte  que por vezes se apresentava como autor de infrações, para levar as chibatadas no lugar de uma mulher, ou de um escravo mais velho e mais fraco. O feitor sabia, e tinha pelo negro uma certa admiração e respeito que naturalmente  ocultava para não dar sinal de “fraqueza”. Naquela manhã Omaré não se apresentou no pátio e não foi encontrado na senzala. Deram falta de alguns mantimentos na cozinha e concluíram que tinha fugido. “Miserável, querendo me desmoralizar” disse o feitor em voz alta, e partiu a cavalo em busca do fujão. Foram com ele dois capitães do mato e alguns cachorros treinados em perseguir caça. O negro tinha pelo menos umas dez horas de frente Mas os homens já imaginavam a rota que seguiria. Tentaria chegar ao quilombo do Cedro, no sudoeste de Goiás. Dois dias depois encontraram restos de uma fogueira ainda quente. Separaram-se em três direções distintas para encurralar o fugitivo. Dimas seguia por uma trilha acidentada beirando alguns precipícios, o que o fez descer do cavalo seguindo a pé com cuidado. tentava ser o mais silencioso possível, de repente, pisou numa pedra solta e desequilibrou-se, seu corpo pesado escorregou pelo cascalho em direção ao abismo. Conseguiu num último esforço agarrar-se a algumas raízes e vegetações rasteiras, ficando com o corpo balançando no alto da ribanceira. Aí lembrou-se de Deus, começou a rezar e a pedir socorro. Já estava muito cansado de se debater, quando viu  um braço negro agarrar-se ao seu, puxando-o para cima.  Caíram os dois, exaustos pelo esforço e ficaram ali ofegantes por alguns minutos. Nesse tempo o feitor percebeu que sua arma ainda estava na cintura. E, num rápido movimento apontou para  Omaré dizendo com ar de deboche. “Não se mexa negro fujão, vou leva-lo de volta e arrancar o couro dessas costas no chicote”, e deu um tiro para cima para alertar os companheiros. Ao fazer isso permitiu a reação do escravo. Omaré deu-lhe um violento chute na mão fraturando seu punho. Puxando para si o feitor  e com uma força que ignorava ter, levantou-o acima dos ombros e o arremessou no abismo.  É provável que em queda livre Dimas ainda pôde entender que iria morrer, nem tanto pela sua maldade, mas pela sua profunda ingratidão. Seus restos foram localizados semanas depois, pela revoada de urubus. Omaré esquivou-se dos outros perseguidores, prosseguindo sua fuga até  avistar  entre as serras de Goiás, o quilombo, seu destino final. Ali vivem até hoje possíveis descendentes seus, em condições pouco mais que miseráveis. Mas pelo menos livres.

avp/04.nov/2019     www.ailton-primo.blog

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