Quando se vive a vida toda num lugar, mesmo que a cidade cresça e se espalhe por grandes áreas, vez por outra você se reencontra com seu passado. Volta a lugares, que não ia há muito tempo, encontra pessoas que foram seus amigos no colégio, vizinhos antigos, velhos professores, jogadores do seu time e outras casualidades que te remetem às diversas fases da sua vida. Geralmente são prazerosas essas ocasiões. Certo dia encontrei uma exceção. Estando com minha mulher num shopping center, enquanto ela entrava numa loja de departamentos, onde geralmente as mulheres demoram muito, sentei-me numa das mesinhas de um café. Tomava meu cappuccino tranquilamente quando reparei num homem do outro lado do corredor, com uma criança no colo, possivelmente uma netinha. Reconheci como sendo Florisvaldo, um antigo colega no ensino médio. Fui ao seu encontro feliz por vê-lo e o chamei pelo nome. “Florisvaldo, há quanto tempo amigo?, que bom te encontrar!” Ele me olhou com uma certa indiferença e perguntou “Eu te conheço?”  Refresquei-lhe a memória, “Estudamos juntos na Escola Técnica” ele fez um esforço de memória e se lembrou. Me olhando de cima em baixo disparou “Tem razão de eu não te conhecer com essa cabeça branca. Você está velho demais, que que isso?”  Senti o baque, e enquanto pensava no que dizer ele disparou de novo “Você está gordo demais, que que isso?”  Antes de ouvir um novo “que que isso” tentei apaziguar as coisas “É a vida amigo, o tempo passa para todos”, e olhando sua cara de jenipapo maduro continuei “soube pelo Barreto, lembra dele? Que você está morando em Jataí. Um dos pioneiros de lá é meu tio, Seu Odivan Vieira conhece?”  Florisvaldo que até ali não tinha dado um pequeno sinal de estar contente com nosso encontro continuou sua trajetória agressiva. “Conheço, mas aquilo está gagá de tudo, as filhas é que assumiram os negócios, tá lá de fraldão, não conhece mais ninguém, é uma vida que eu não quero para mim, eu hein! que que isso?”.  Aí me lembrei que meu café estava muito melhor que aquele sofrido colóquio, e resolvi ir embora. Reparei na criança, uma menina loirinha linda que sorriu alegremente para mim perguntando “Você é amigo do vovô?” Passei a mão por seus cabelos e enquanto me virava murmurei “fui”. Então me afastei ainda ouvindo a voz de Florisvaldo “você está apelando? volte aqui”. Nem me virei, fui embora com um gosto amargo daquilo que poderia ter sido um alegre reencontro. De positivo ficou apenas o sorriso daquele anjinho loiro. Não lhe guardo nenhum rancor, essas coisas as vezes acontecem. Vida longa ao Florisvaldo.

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