Enquanto acendia o fogo em sua solitária cabana na montanha, ao norte de Katmandu, no Nepal, o velho monge, ouvindo o som do vento gelado lá fora,  pensava em sua família. Abandonara tudo ainda jovem para seguir o que acreditava ser o sendero do bem. Vendeu seus poucos pertences e saiu pelo mundo vivendo de maneira contemplativa. Foi aceito em um mosteiro e incorporou-se rapidamente àquela vida dura e rotineira de orações e trabalho. Pesava pouco mais de quarenta quilos, e sua pele com textura e cor de pergaminho exibia as marcas dos oitenta e cinco anos, mais de sessenta deles vividos ali em seu solitário ninho. Era mestre na arte da meditação. Passava horas sentado com a coluna ereta, pernas cruzadas e mãos postas, com o rosto voltado para o grande vale Tsiretatan entre os picos do Himalaia. Alcançava níveis profundos de relaxamento, com frequência sentia seu espírito se descolar e flutuar acima do corpo de onde analisava o mundo livre das amarras terrenas, e tinha visões otimistas da humanidade. Via um mundo justo, colorido, e sem as iniquidades que nos assolam. Com frequência via-se no colo de sua mãe, cercado de carinho, brincando alegremente com os nove irmãos, e interagindo com o ambiente de harmonia com o qual perdera contato ao partir. As visões e sonhos se interrompiam no exato momento em que virara as costas para seguir seu destino. Parecia que ali ficara sua existência, parada no tempo. Seu pai tentara dissuadi-lo, mas a atração pela vida monástica era muito forte, e ele seguiu em frente. Vivia naquela cabana desde que deixara o mosteiro, onde agora só ia de tempos em tempos trocar  seus andrajos por um hábito novo. Não saíra por falta de fé, mas por acreditar estar próximo de desvendar e conhecer o seu “eu” absoluto, e isso pedia isolamento total. Periodicamente descia até a cidade onde mendigava por roupas velhas e comida que pudesse armazenar em sua cabana. Sem que percebesse, foi aos poucos entrando numa fase de confrontação e balanço. Teria valido a pena se entregar inteiramente àquela vida de privações? Aos votos de pobreza que fizera? Exercitava-se tentando  imaginar como teria sido sua vida caso não tivesse partido atrás de sua fé. Talvez estivesse casado, com filhos e netos cercado de carinho e atingido a prosperidade material. Teria sido bom? Não tinha resposta.  No fundo não se arrependia,  mas sempre terminava suas meditações e reflexões com uma sensação de perda de tempo. Nunca se esquecera dos pequenos triângulos pilíferos na virilha de suas irmãs e primas a quem espionava durante os banhos no lago. Jamais tocara nelas, mas era uma recordação que o agradava muito. As vezes imaginava-se em tabernas com irmãos, amigos e conhecidos. Fazendo farras de deixar Eros  e Baco enciumados. Mas não podia recriminar-se, a escolha tinha sido dele. Acreditava ser tarde para qualquer recomeço. mas todos aqueles anos de meditação e contemplação tinham-lhe deixado uma certeza. Nas próximas encarnações, caso ocorram, pois nem disso tinha mais certeza absoluta, tratará de dar um sentido mais vivo, produtivo e construtivo a sua fé. Priorizará a vida como homem comum , e dentro dela achará o caminho para Deus. Deve ser menos penoso. Alguns invernos depois foi encontrado morto por caçadores, congelado na posição de Lotus, segurando um pergaminho com sua uma última mensagem. “A vida se resume à fé, trabalho, família e amigos. Mas qualquer um destes isoladamente, não preenche a alma do homem”.

 

AVP23/11/2019.   –    www.ailton-primo.blog

 

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