Julio chegou correndo quando o vigilante começava a fechar o portão, mas ainda permitiu que ele entrasse no departamento de transporte da empresa para pegar o material para o teste. Estava desempregado já há mais de ano e tinha esperanças de conseguir uma das dez vagas disponíveis para motorista. Tinha entregado o currículo três semanas antes e agora fora chamado para a prova escrita, teste psicotécnico, e a entrevista. Eram uns quarenta candidatos. No dia da prova escrita chegou cedo, escolheu um lugar mais no meio da sala. As nove da manhã pontualmente distribuíram as provas.  Já tinha transcorrido uma hora, e Julio seguia incomodado  pois dois concorrentes colavam descaradamente, o que punha em dúvida a lisura da disputa. Chamando discretamente o fiscal informou-lhe ao pé do ouvido da constrangedora situação. Esperou que algo fosse feito, talvez separar os dois espertinhos. Como não foi atendido, chamou novamente o fiscal e insistiu na reclamação. Postando-se por uns trinta segundos junto aos dois infratores, o homem convenceu-se de que não havia nada de errado e continuou sua ronda e os dois pilantras voltaram a colar. Com os nervos à flor da pele com aquela desonestidade Júlio foi se desconcentrando da prova onde estava até indo bem. Pensava nas dificuldades financeiras que há tempos vinha passando. Na humilhação de pedir dinheiro emprestado aos parentes e amigos. Não se conformava com aquela deslealdade de duas pessoas que nem conhecia, mas a quem não dava o direito de fazê-lo de idiota. Então não resistiu. Levantou-se, pediu licença para falar e começou com voz pausada e firme. “Tem gente colando nessa sala, isso não é justo. Já reclamei com o fiscal duas vezes, e nada foi feito, continuam descaradamente colando. Uma prova de seleção precisa ser justa, e acima de tudo honesta. Sugiro a todos que entreguemos a prova sem terminar, em protesto contra essa fraude, e vamos exigir que outra seja realizada”. Para confirmar que estava falando sério caminhou até a mesa e entregou sua prova. Esperava ser imitado naquele ato de revolta, mas foi o único. alguns minutos depois, arrependido tentou voltar à sala, mas foi impedido pelo fiscal (aquele mesmo).  Cego de raiva, armou-se com uma faca que trazia na mochila e sentou-se num barzinho em frente a empresa para esperar a saída dos concorrentes. Não deixaria barato, aquilo simplesmente não estava certo.  Enquanto esperava, foi abordado por um catador de recicláveis, que puxou conversa a respeito do calor, e foi ficando por ali tomando uma água que pediu no balcão. Percebendo o aborrecimento de Julio o homem perguntou-lhe o motivo. A tensão estava muito grande em sua cabeça, mas sentiu vontade de contar a história ao desconhecido, inclusive o que estava pretendendo fazer. “Vou acertar as contas com os dois” disse ele com os olhos injetados.  O catador puxou sua cadeira para perto de Julio e disse “Dizem que se conselho fosse bom não era dado, era vendido, mas mesmo assim vou dizer o que penso. Você me parece fora de si, e nesse estado nunca se toma uma decisão correta. Vá para casa e deixe o tempo resolver isso. Se um carro passar numa poça de lama e sujar sua roupa, não tente limpar na hora, espere a lama secar. Depois de seca ficará muito mais fácil de ser removida e o tempo transcorrido sossegará seu coração eliminado a raiva”. Julio começou a chorar, e as lágrimas aliviaram a imensa tensão que sentia. Abraçou o homem, agradeceu o conselho e foi embora. Levou mais alguns meses para conseguir um emprego mas não carregou consigo a culpa de um crime. Esse episódio o ensinou que os emissários de Deus sempre aparecem nas  mais diversas ocasiões e de muitas e inesperadas maneiras. Aquele catador de recicláveis com certeza foi um deles. Seu conselho ficou gravado no subconsciente de Julio que deixou de agir de maneira intempestiva.  Espera sempre a “lama” secar.

AVP10/12/2019

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