Suelene  Costa aos quinze anos não era das mais brilhantes alunas do curso de canto no conservatório de Rio Claro. Estava ali graças a uma bolsa conseguida pela associação de moradores de sua comunidade. Se esforçava muito,  mas não conseguia evoluir. A professora, uma polonesa de maus bofes, era severíssima e tinha um ouvido absoluto. Por mais que a aluna tentasse, nunca conseguia agradar a mestra. Até que um dia foi convidada a se retirar do curso por insuficiência técnica. Na época suspeitou-se de preconceito por ser uma menina negra, mas ficou por isso mesmo. Ficou triste,  claro, sonhava em ser cantora lírica, e não queria simplesmente desistir. Voltou aos estudos convencionais, mas conservou a vontade de vencer, de brilhar. Algum tempo depois procurando um creme para pele na internet, encontrou por acaso o anuncio de um curso de Ballet que seria ministrado em São Paulo, por enviados do Ballet Bolshoi, e que ao final escolheriam os três melhores talentos para uma bolsa de estudos em Moscou. Salvou o anuncio e voltou a sonhar. Sua mãe conhecia uma bailarina aposentada que vivia em sua cidade, que prontamente aceitou fazer parte do sonho da menina dando-lhe aulas de iniciação até que viesse o teste. Trabalharam duro, em pouco tempo, e graças a um biotipo favorável, a menina já apresentava boa desenvoltura, e o melhor, estava amando fazer aquilo. Quando o Bolshoi chegou, concorreu com outras cinquenta garotas, e foi selecionada entre as quinze que fariam o curso. – Agora com vinte e um anos morava em Moscou, cidade de clima e alma gelados. Era exaustivamente exigida nos ensaios de uma das maiores companhias de Ballet de todos os tempos. Esperava ter chance um dia de se apresentar nos grandes palcos do mundo. Começou a perceber que todas as outras meninas que foram com ela eram convocadas para participar das apresentações e ela não. Aos poucos foi se convencendo de que o motivo estava em sua pele negra. Já falava Russo com fluência e cobrou explicações dos professores, que não admitiram que existisse ali restrições de cunho racista. Finalmente foi incluída numa excursão para apresentações em várias cidades da Russia. Estava feliz e esperançosa. Porém, assim que pisava o palco, ouvia vaias, e em algumas apresentações parte da platéia se retirou. Era uma coisa ofensiva e agressiva, intolerância racial pura. Então desistiu, não dava para enfrentar tudo e todos o tempo todo. Não tinha culpa de ser negra.  Tornara-se uma grande bailarina. Era tecnicamente excelente, mas tinha que ficar argumentando e se defendendo  de brincadeiras maldosas e jocosas sobre sua raça. Ao final de um espetáculo onde fora vaiada mais uma vez, e sentindo-se triste e deprimida saiu pelas ruas geladas de Vladivostok, uma cidade portuária na Sibéria e não foi mais vista. na primavera seguinte quando o gelo começou a derreter encontraram no fundo de uma vala, o corpo da bailarina de ébano e todos os seus sonhos. Levou consigo sua “causa mortis”, mas talvez tenha sido tristeza profunda.

AVP-19/12/2019

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