O segurança da loja passou a vigiar de perto o homem que olhava fixamente para um piano de brinquedo na prateleira. Na sua cabeça o homem estava planejando rouba-lo. E ficou ali pensando em como faria para evitar ou antecipar-se ao furto. Já haviam se passado uns vinte minutos e o homem continuava ali olhando para o brinquedo. Era Rivaldo, retirante nordestino que estava em São Paulo há dez anos, trabalhando na construção civil. Em vista do que trouxera do nordeste, havia conseguido muita coisa na grande metrópole. Era trabalhador e inteligente, foi galgando postos  melhores ao aprender com rapidez o que lhe era ensinado. hoje era assentador de pisos e revestimentos. Não ganhava tão mal, mas a despesa com a mulher os três filhos e o aluguel, não deixava margens para lazer ou supérfluos.  Percebeu o olhar suspeito do vigilante e se sentiu desconfortável, nunca tinha roubado nada, nem para comer. Mas não se livrava daquela sina de ser olhado sempre com desconfiança. Aproximou-se do homem uniformizado e foi dizendo, “Pode ficar tranquilo senhor, não vou roubar nada, isso não é do meu feitio. Estou olhando para esses brinquedos, e pensando nas dificuldades da vida. Trabalho igual a um cavalo, levanto  de madrugada, pego três conduções para chegar nas obras, como marmita requentada e mesmo assim não consigo dar presentes para meus filhos no natal”. O vigilante atento ao relato, não sabia como reagir, nem o que dizer, também pensava em suas dificuldades, mas pelo menos era solteiro.. Rivaldo continuou falando “Se eu não trabalhasse, fosse um vagabundo, preguiçoso eu não teria nem o direito de questionar, mas trabalhando tanto não consigo entender onde está a justiça da vida. Tenho uma filha de cinco anos, e eu adoraria dar aquele piano ali pra ela, mas com aquele preço não tenho a mínima condição de fazê-lo”. Com lágrima nos olhos virou-se e começou a se afastar quando ouviu “Espere, volte aqui”  só então notou o senhor alto e calvo que estava próximo mas sem se identificar.  Dirigiu-se a Rivaldo apresentando-se como Misak, o dono da loja. Enquanto ouvia a história, notou que Rivaldo não estava pedindo nada. Estava apenas indignado com seu destino.  Comerciante há quase meio século, há muito se convencera que gente pobre não oferece muito risco ao comércio, pois a coisa mais importante para eles é o nome, e fazem de tudo para não suja-lo. Então disse: “Vou te vender aquele piano em vinte meses sem juros, consegue pagar?” Não quis dar o brinquedo para não tirar a dignidade do outro. Rivaldo pensou um pouco e então disse “O senhor não vai se arrepender, vou pagar cada centavo” Misak tinha absoluta certeza disso. Incluiram no pacote presente para os outros dois filhos e Rivaldo foi embora feliz. Misak ficou pensando que tinha ajudado a resolver o problema desse natal. E os outros. O espírito de solidariedade de todos nós precisa se renovar a cada natal, e se estender também para o restante do ano. Se cada um de nós ajudasse pelo menos uma pessoa necessitada, a miséria reduziria, e o mundo seria um lugar muito melhor. A generosidade é um dos mais importantes alimentos para a alma.

 

 

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