Doutor, posso engraxar seus sapatos? Ele devia chamar todo mundo de Doutor. Eu nem precisava, tinha feito isso na véspera, mas ao ver o garoto com sua caixinha de madeira nas costas resolvi parar e deixa-lo fazer o seu trabalho. Sentei num banco ali na avenida e disse “Dê só uma limpada porque estou com pressa. nem precisa usar graxa”.  Mostrando um a agilidade incrível no manejo da escova e do pano de lustrar, o menino imprimiu um curioso ritmo de samba e cativou meu interesse. Em poucos minutos ele bateu com a escova na caixinha e disse “pronto” Aí era tarde, eu já estava gostando de sua ritmada agilidade e disse: “Acho que ainda dá tempo de passar uma graxa”, sorridente o pequeno assentiu com a cabeça e continuou com o samba, dessa vez acompanhado de um assovio. Era uma música do Paulinho da viola que eu gosto muito. Foi um instante de deleite somado à admiração pelo trabalho do garoto. Ao final meu pequeno engraxate/músico cobrou cinco reais. Sabendo que não teria troco dei dez, combinando que ele ficaria tendo em haver uma nova engraxada para a semana seguinte. “Quero música nova” disse eu já me afastando. Sabia que dificilmente nos encontraríamos de novo, aquele não era o meu caminho habitual. Fui embora pensando. Ao contrário de muitos que apenas estendem a mão, fazem cara de choro e pedem uma “ajuda” para comer, Eliel, esse era seu nome, com idade aproximada de doze anos,  preferiu o caminho do trabalho.  Com certeza orientado por seus pais que também devem ser gente de fibra que tentam passar valores importantes aos filhos, como dignidade. Essa estória se passou há muitos anos atrás. Hoje, provavelmente Eliel seria recolhido pelo conselho tutelar. Seus pais levariam um “carão” por deixa-lo trabalhar, ou por exploração de trabalho infantil e muitas outras baboseiras. Na visão e nas leis de hoje, criança tem que brincar, sonhar, ser criança realmente. Tudo bem, mas em Países como o nosso, em que a maioria das famílias pertencem as classes C e D, e lutam heroicamente pela sobrevivência deveria haver um pouco mais de flexibilidade. Hoje atividades como engraxates, office-boys, ajudantes nas feiras livres, entregadores, vendedor mirim e outras que antes eram desempenhadas por menores de idade praticamente não existem mais. Hoje existe uma legião de menores desocupados, a mercê da péssima influência da televisão, jogos eletrônicos, do assédio de facções criminosas ou de se tronarem pedintes pelas ruas. É uma ironia mas é o que acontece em nosso País. Pedir pode, trabalhar não.

AVP/30/12/2019

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