No meio da subida íngreme o homem desceu da bicicleta e seguiu empurrando-a morro acima. Era Tobias, um peão preguiçoso e molenga, agregado da fazenda Limoeiro. Já estava a uns cinco quilômetros de sua casa, quando percebeu que saíra sem um tostão no bolso. Deixara a carteira em cima de uma cadeira em seu quarto. Estava indo à vila comprar os mantimentos do mês, e um remédio para as dores de Djanira, sua mulher. Pensou em voltar, mas já estava mais perto da vila do que de sua casa. “Talvez consiga comprar fiado, todo mundo me conhece”, e continuou seu caminho. Chegando, foi direto a venda de seu Oscar. Era daquelas que vendia de tudo, arroz, feijão, banha de porco, querosene para lamparinas, corda de bacalhau, bilhete de loteria e tudo mais. Seu Oscar ouviu a estória, e olhando o homem de cima em baixo, lembrou-se  de uma conta antiga, ainda não paga, disse: “Não posso lhe vender fiado, você ainda não me pagou a compra do mês passado”. Com cara de coitado, Tobias ficou sem graça e disse “Eu vinha justamente pensando nisso seu Oscar, mas o senhor podia me vender só mais essa vez, quando receber pago tudo”.  O vendeiro já calejado, mas com pena das dificuldades do homem arranjou um meio termo. “Tá certo, mas você vai levar só o essencial, pode riscar dessa lista a lata de goiabada, pinga de engenho, fumo de rolo,  vai levar apenas arroz, feijão, óleo e farinha de mandioca, e agora só vendo de novo depois que receber, essa é a última vez”. Tobias desmanchou-se em agradecimentos e partiu para a farmácia. Seu Zeca, mal humorado, tinha recebido a visita da fiscalização que lhe deixara uma pesada multa por encontrarem medicamentos com prazo de validade expirado. Estava pelas cabeceiras. Quando Tobias começou com aquela conversa de cerca Lourenço, cortou pela raiz: “Não vendo fiado nem para o Papa com ameaça de aborto. Entendeu? Nem para o Papa”. Aflito Tobias pensou na reprimenda que levaria de Djanira se voltasse sem o remédio. Todo mês era a mesma coisa. Dores horríveis. Aquela estória de Papa o fez lembrar do vigário e saiu a sua procura. Entrou de supetão na sacristia e viu a cena comprometedora. O padre sem graça arrumava a batina enquanto a beata Florisa saía de fininho pela porta dos fundos. “Confissão” disse o padre com um sorriso amarelo.  A pequena chantagem deu resultado, o padre foi na sacola de ofertas e tirou o dinheiro para a compra do remédio. O peão voltou para casa alegre e vitorioso.  Viveu na fazenda por mais uns seis meses, sempre explorando a boa fé dos outros. Um dia perdeu o emprego e foi folgar em outro lugar. Esse tipo de gente não gosta de trabalhar, e vai tocando a vida de ouvido, sem partitura. Sempre improvisando, dando um jeitinho de ir vivendo as custas da boa fé alheia. Se pensar bem, você leitor, também deve conhecer alguém com essas características, pois não são tão raros assim. Conhece ou não?

AVP-05/01/2020

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