Eram vinte e oito homens no garimpo de diamantes no município de Guiratinga, pequena e acolhedora cidade de Mato Grosso, na época com  cerca de seis mil habitantes.  Tempo de homens valentes, tanto na disposição para o trabalho, quanto no temperamento. Aquilo era serviço duro. O dia todo com a água pelas canelas,  sob sol inclemente rodando a bateia,  um instrumento redondo parecido com uma peneira, porém sem furos e seu centro tinha um formato ligeiramente cônico. Nela se lavava o cascalho tirado do fundo do rio. Sendo o diamante mais pesado que as pedras comuns, sua tendencia era acumular no centro da bateia. Quando encontrados, eram a alegria dos garimpeiros. Se pequeninos, eram chamados de “xibius” , e era o que a maioria dos garimpeiros pegavam, quando maiores, eram os “bamburros”, esses bem mais raros. Quando se ouvia dizer que fulano tinha “bamburrado”, significava sorte grande, pedra grande. Era de se esperar que num ambiente selvagem daqueles, onde o número de pessoas era menor que o número de armas de fogo, imperasse a lei do cão. Seu Joaquim, já pelos seus oitenta e poucos anos, um remanescente daqueles tempos difíceis, foi quem me contou essa estória. Segundo seu relato, havia ali uma paz entre os garimpeiros e um clima de confiança absoluto. Quem achasse uma pedra grande, valiosa, podia guardar na barraca sem risco de alguém roubar. Essa harmonia só era quebrada quando apareciam mulheres no garimpo. Por aqueles lados haviam alguns grupos de “mariposas” itinerantes, que andavam de garimpo em garimpo levando “alegria e diversão” para aqueles coitados há meses no meio do mato, e claro, eram pagas com pedras, geralmente xibius. Aí rolava pinga a vontade, e logo surgiam desavenças e disputas pelas putas. Mas não havia casos de roubo. A propriedade e a maloca de cada um era inviolável. Tinha uma placa mal escrita na entrada do garimpo “Aqui quem apanhar  o alheio, não volta a montar no arreio“, Era um aviso que ali o roubo não era tolerado. Ainda segundo o relato de seu Joaquim, aquela lei informal não se restringia àquele garimpo, mas a grande parte do estado de Mato Grosso. Bandidos aprontavam em Goiás, Minas Gerais, São paulo e fugiam para outros Estados, mas nunca para Mato Grosso. Pois ali, se fossem pegos, podiam estar certos que comeriam capim pela raiz. A conversa estava ótima, mas seu Joaquim estava com sono e foi dormir.  Os dizeres daquela modesta placa bem que poderia ser estendidos para todo o Brasil. Tem ladrão demais na nossa terra gente! Que bom se pudéssemos fixar aquela placa em cada praça, a começar pela Praça dos  Três Poderes. E melhor ainda se ela fizesse efeito.

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