O plantão na UTI estava movimentado, já passava das três da manhã e eu ainda não tinha dormido um minuto. Elma, a enfermeira chefe veio me comunicar que o paciente do leito doze tinha acordado e estava “brigando” com os aparelhos. Era Roberto voltando do coma quarenta e seis dias depois do acidente. Desliguei o respirador, tirei a cânula e ele voltou a respirar de forma espontânea. No dia seguinte voltei a vê-lo, já tomando uma sopinha por via oral, mas ainda muito fraco. Após examina-lo, constatando sua melhora, sentei a seu lado a seu pedido. Então me contou a seguinte história que produzo em suas próprias palavras:

            (Assustei-me com o barulho da freada, mas não tive tempo de reagir. Senti o impacto que me arremessou para o alto como um boneco de pano. Não senti dor. Ao abrir os olhos devagar, notei que flutuava acima de uma pequena multidão que rodeava um corpo estendido e inerte. Percebi com espanto que o corpo era o meu. Quis falar com as pessoas, mas parece que não me ouviam, todos fixos naquele homem aparentemente morto. Vi do alto, quando os paramédicos chegaram e começaram as manobras de ressuscitação. Percebi então que estava sendo tragado por uma espécie de túnel de luzes multicoloridas, lembrando um caleidoscópio, e comecei a me afastar da cena do acidente. No trajeto tive a impressão de ver minha avó, meu pai, e o primo Tobias, todos já há muito falecidos. Eles tentavam falar comigo, mas eu não conseguia entender, nem acenar de volta.  Cheguei diante de um magnífico portal, guardado por um homem de aparência simples e comum. Aproximando-se o homem me disse “você vai voltar, ainda não é o seu momento” e antes que eu pudesse dizer alguma coisa, o portal, túnel, tudo desapareceu. Ficou só escuridão e frio.

            Quando terminou fez uma longa pausa e perguntou “O senhor acredita nisso doutor?”.  Fiquei sem saber o que dizer. Sendo um homem de ciências, sou mais propenso a acreditar no que posso ver, tocar, provar com evidencias firmes e indiscutíveis. Disse a ele que não acreditava, mas que já ouvira outros relatos parecidos. Com os olhos marejados, Roberto me olhou e disse: “Eu também nunca acreditei doutor, mas agora, depois de ir até a fonteira e voltar, não tenho mais o direito de duvidar”. Voltei para o meu posto pensativo e com uma certeza na mente. A princípio, o homem não acredita em milagres,  até precisar de um.

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