O caminho não é esse disse a mulher com o mapa aberto no colo, você devia ter virado a esquerda. O marido carrancudo e calado só resmungou: “Desde quando você sabe olhar mapa?” , e calou-se novamente. Embora já fizesse uns dez anos que estivera naquele endereço, acreditava que ainda sabia o caminho. E além do mais porque deveria dar ouvidos à mulher, ela gostava de dar palpite em tudo, e não acertava uma. Não se deu conta de que a cidade é dinâmica, cresce muito, e com isso altera a paisagem.  Foi tocando em frente. A mulher conformada fechou o mapa e recolheu-se à indiferença. Uns dez minutos depois, já convencido de que a mulher tinha razão, Cornélio começou a pensar numa saída honrosa, não queria  dar-se por derrotado na frente de Cristina. Então começou a dar voltas antes de retornar ao ponto onde se enganara, para ver se confundia a mulher. Ela ali, calada, só pensando.”Porque os homens são tão teimosos? Qual é o problema de errarem uma vez ou  outra? “. Com um fio de voz sugeriu que parassem e perguntassem num posto de gasolina, ou num bar. Aí sim feriu novamente os brios dele. Homem pode estar perdido há dias, não gosta de perguntar. Vão pensar que sou idiota. Geralmente após muitas tentativas e erros conseguem chegar finalmente ao destino.  Chegaram atrasados para o casamento do sobrinho dele. Até aí tudo bem, Cristina deixou pra lá os muxoxos do marido e foi curtir a festa. Enquanto cumprimentava os presentes, viu Cornélio já com uma grande caneca de Chopp, e quando começava assim bebia até falar pastoso. Precavida resolveu não beber nada de álcool. Dito e feito, ao final da festa vendo que ele não tinha condições de dirigir de volta, aproximou-se e pediu as chaves do carro. “Porquê?, eu dirijo, não bebi tanto assim”. É outra coisa frequente. Homem não gosta de admitir que está bêbado. “Não vou dar chave nenhuma, eu dirijo, o carro é meu, eu dirijo, além disso, sei desviar das blitz”. Ela não estava pensando em blitz nenhuma e sim nas consequências de um eventual acidente. Cansada daquela chatice, a mulher resolveu finalmente reagir. Enfiou-lhe o dedo nas fuças e esbravejou. “Olha aqui seu bêbado irresponsável, você não vai dirigir coisa nenhuma. Se quiser arriscar sua vida, arrisque quando estiver sozinho. Sem beber você quase não achou o caminho, saiu dando voltas e voltas para chegar aqui. Agora bêbado desse jeito nunca vai encontrar o caminho de casa. Abaixe o facho, ou vou chamar a polícia para resolver quem dirige”. Cornélio sentiu o golpe. Nunca vira Cristina brava daquele jeito. Entregou as chaves sem reagir. Ora bolas pensou Cristina, porque será que homem é tão teimoso. “Ô raça!  querem ter razão sempre”. Dirigiu de volta sem problemas, no segundo quarteirão o machão já dormia a sono solto.

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