Maria foi pensando pelo caminho nas palavras de conforto que diria a Mirtes, amiga há mais de dez anos, que ficara viúva há duas semanas. Não pôde comparecer ao velório, nem à missa de sétimo dia por motivo de viagem. Lembrava-se o dia em que a amiga se mudou para o seu bairro, a simpatia foi imediata, conversaram por uns vinte minutos ao se cruzarem no supermercado. Maria passou informações úteis para a nova moradora como as melhores escolas, supermercados, farmácias, linhas de ônibus, e se colocou a disposição para ajudar em qualquer coisa. Ficou sabendo que Mirtes e o marido estavam vindo de Cumari, pequena cidade do interior Goiano em busca de melhores escolas para os filhos. Osvaldo, policial civil, tinha conseguido transferência para a Capital, onde esperava ter maiores chances na carreira. Ela era cabeleireira e pretendia montar um pequeno salão em sua casa para ajudar na renda familiar e ao mesmo tempo acompanhar o desenvolvimento dos meninos. E assim foram passando os anos. Maria frequentava o salão da amiga e aos poucos foram se tornando confidentes, quase irmãs. Era um casal normal, carinhosos um com o outro, os meninos eram crianças exemplares, educados, estudiosos, e sobretudo criados com limites, respeitando os mais velhos. Formavam uma família harmônica e feliz. Ao se aproximar da casa da amiga, ouviu risos, e uma música de Amado Batista em alto volume. Começou a ter dúvidas. Devo ter entendido errado. Será que foi o Osvaldo mesmo?  vinha preparada para um encontro triste e com aquele clima pensou em dar meia volta e se informar direito. Mas era tarde, Mirtes já a tinha visto no portão, e saiu para encontra-la. “Entre Maria, venha tomar um café” disse ela dentro de um vestido rosa choque decotado e justo. Maria meio sem graça começou a se justificar “Eu soube de uma notícia, mas pelo jeito é boato”, Mirtes sorriu enquanto dizia “Qual notícia? da morte do Osvaldo?  Não é boato não, é verdade. E vou te dizer, já foi tarde aquele desgraçado, cínico”. Maria atônita parecia não acreditar no que ouvia. “Mas vocês pareciam viver tão bem, não estou entendendo”. Caminharam para dentro de casa, onde a viúva continuou seu relato.    “No começo sim, vivíamos muito bem, mas assim que viemos morar na capital, Osvaldo começou a mudar. Passou a andar em más companhias, frequentar lugares mal afamados, e sobretudo, começou a beber. Descontava suas frustrações em mim e nos meninos. Nunca nos agrediu fisicamente, mas as vezes a agressão moral é mais violenta que a física. Ele cada vez mais ausente, chegava a passar três dias fora de casa”. Maria incrédula interrompeu “Mas eu frequentava seu salão semanalmente e nunca notei nada”  depois de uma longa pausa Mirtes continuou “Eu não deixava as coisas se misturarem. Achava que era problema só meu, e segurava as pontas. Mas o pior amiga, é que no velório apareceram três viúvas, quatro comigo. O safado saiu fazendo filhos por aí e agora o pouco que construimos será divido em muitas partes. Cafajeste, filho da puta. Só não sapateei e dancei um samba em cima de seu caixão porque fiquei com medo de cair na cova. Mas ele que não se iluda, logo vou estar no mercado de novo, e se Deus quiser dessa vez vou arranjar um homem que preste.  Mas agora deixa isso pra lá, aceita um pãozinho de queijo?”.  Maria despediu-se da amiga desejando sorte e foi embora convencida de que as pessoas nunca sabem realmente o que se passa da porta dos lares para dentro.

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