O temporal já se anunciava desde o meio da tarde, agora, a noitinha, parecia mais próximo com nuvens negras e ameaçadoras,  mas os dois resolveram continuar a viagem. Estavam a pouco mais de duzentos quilômetros de casa, e com saudades dos filhos. O carro que dirigiam, uma SUV Volvo, tido como resistente e seguro, reforçava a confiança de continuarem a viagem. Partiram do posto de apoio as seis da tarde. A pouco mais de vinte quilômetros encontraram a borrasca. Relâmpagos, ventos fortíssimos, e água que não acabava mais. Os limpadores de para-brisa mesmo no máximo não conseguiam dar condições de visibilidade adequada. Heloísa passou de assustada a aflita e a desesperada em poucos minutos. Vicente quase colava o rosto no vidro dianteiro para enxergar alguma coisa. Por sorte era uma estrada de pouco movimento e conseguiram ir em frente até porque não havia lugar para parar. Já estavam assim há uns quarenta minutos, o esforço para dirigir cansara Vicente. Não podia se desconcentrar da estrada. A água encobria a pista. Subitamente a roda dianteira direita acertou um buraco e o carro se desgovernou. Apesar do grande esforço para controlar o veículo, o homem sentiu a decolagem, o giro no ar, outras decolagens, outros giros, ate pararem com as rodas para cima a uns quarenta metros da pista, totalmente encobertos pelo capim colonião alto que margeava a estrada. Heloísa queixava-se fortes dores na perna direita, mas de resto estava bem. Vicente tinha um corte no rosto que sangrava muito, e uma dor abdominal leve, que julgou ser compressão pelo cinto. Penosos minutos depois conseguiram sair do carro. O Aguaceiro continuava forte. Precisavam com urgência de um abrigo. Procurou o telefone celular e não o encontrou. A bolsa de Heloísa com o dela também tinha desaparecido. Com os olhos melhor acomodados à escuridão, percebeu que a porta do bagageiro  estava aberta.  Com cuidado levantou Heloísa, levou-a de volta para para o carro protegendo-a da chuva, e arrastou-se também para o porta malas. Não tinham o que fazer senão esperar ajuda, que provavelmente só viria com dia claro e depois de passada a chuva. ela chorava baixinho, um pouco pela dor, mas principalmente por arrependimento de ter insistido com o marido para prosseguirem, faltava tão pouco.  estavam encharcados e com frio, mas pelo menos abrigados.

              Incomodado com a demora dos Pais, Felipe o filho mais velho, ligou para os avós, e depois para a polícia e foi orientado a esperar um pouco mais pois deviam estar seguros em algum lugar esperando a tempestade passar disse o policial de plantão. Ligou para o celular do Pai e da mãe várias vezes não obtendo resposta. Não quis incomodar seus irmãos, mas não se conformava. Se fossem parar e passar a noite em algum lugar teriam ligado e avisado. A chuva só parou perto das cinco da manhã, ficando um silencio assustador. Esperavam amanhecer para voltar a estrada e pedir ajuda. Não ouviam barulho de carro nenhum. Heloísa estava quieta apesar da dor na perna ferida. Vicente exausto começou a cochilar quando de súbito ouviram um som abafado de campainha de celular.  “É o meu, disse Heloísa conhecendo a música”. Vicente precipitou-se para fora do carro e começou a seguir o som mas antes de encontrar a bolsa desligaram. Ficou ali imóvel esperando novo contato   que veio meia hora depois. Dessa vez conseguiu chegar a tempo e atendeu ansioso. Era o filho. Enquanto esperavam a ajuda que só chegou umas duas horas depois, Heloísa repetiu muitas vezes ao marido que tinham tido muita sorte, e de agora em diante prestariam mais atenção aos avisos da natureza, e jamais a desafiariam de novo. Lição aprendida.

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