Viajando desde as cinco da manhã quando deixaram Brasília rumo a salvador onde passariam o carnaval, o grupo de amigos já estava cansado e faminto. Bráulio, o motorista sugeriu que parassem para almoçar no primeiro restaurante que encontrassem. Pouco antes de Lençóis, na região da Chapada Diamantina,  encontraram um lugarzinho simples mas muito limpo e aconchegante, e ali resolveram almoçar e descansar um pouco. Todos, menos o motorista pediram cerveja e um tira gosto de queijo de cabra.  Logo o cheiro da comida começou a chegar da cozinha, aumentando a fome dos presentes. Tentavam adivinhar os temperos que estavam sendo colocados. Coentro, salsinha, pimenta malagueta, alho, dendê, eram os palpites. Quando chegou a peixada baiana que pediram para todos, alguns se queixaram que estava muito apimentada. Menos Nelsinho, que se dizendo um grande apreciador e conhecedor de pimentas  estava achando até “meio fraco”, na sua opinião poderiam ter colocado mais. O dono do restaurante trouxe um pequeno vidro, que segundo ele era a pimenta mais “brava” daquela região. Nunca ninguém tolerara mais do que três gotas na comida, e ofereceu como desafio ao valentão e entendido Nelsinho.  Olhando o vidro, lendo o rótulo, ele pensava “eu e minha boca grande, agora vou ter que enfrentar”.  Destampou o vidro devagar, cheirou,  e quando tentava pingar algumas gotas no prato caiu uma daquelas vermelhinhas com cara de “venha se tu for macho”. Já meio arrependido mas não querendo voltar atrás Nelsinho esmagou a pimenta e misturou no prato, mexendo bem na esperança que o ardor diluísse.  Então começou a comer rapidamente para acabar logo com aquilo. Depois de umas quatro ou cinco garfadas parou subitamente. A boca semiaberta procurando ar, os olhos arregalados e lacrimejantes. O desconforto na garganta era imenso, ele não conseguia falar, seu rosto vermelho e contraído começou a assustar os presentes. Alguém disse “ele está passando mal”. O dono do restaurante trouxe um copo com água gelada para o desafortunado Nelsinho, que se estrebuchava todo. Depois da água, comeu um pouco de farinha, tomou vinagre puro, e foi fazendo tudo o que os outros diziam que era bom. Assim que melhorou um pouco falou “Mãe de Deus, essa é mesmo das braba”. E todos já mais relaxados caíram na gargalhada. Antes de seguir viagem tiveram que esperar umas duas horas pela recuperação do “apreciador e conhecedor de pimentas”. Nos dias que se seguiram não viram mais Nelsinho reclamar dos temperos. Volta e meia alguém brincava “Vai uma pimentinha aí valentão?. Quando voltavam tiveram que parar no mesmo restaurante, pois ele queria comprar um vidro daquela pimenta. “Vou pegar um cunhado meu que é muito mais papudo que eu”.  É sempre assim, ninguém gosta de ficar com a desgraça sozinho, quer sempre passar para a frente. 

AVP 24/01/2019

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