Já na quarta legislatura como deputado federal, aquele homem gordo, pletórico, era simpatia pura. Muito afável e descontraído, tinha uma memória de elefante. Encontrava as pessoas na rua lembrava-se do nome, e da filiação de todos em sua  cidade natal,  que lhe servia de base eleitoral. Tinha como secretária informal a sua mãe, a quem  enviava os eleitores para registrar seus pedidos, e explicar suas necessidades. Não quero aqui inflar o ego de dona Honorina, mas era uma velha de mal com a vida. Carrancuda, ríspida e mal humorada. Despachava a todos  em poucos segundos. O deputado era incapaz de falar “não”. Tudo que era pedido ele ouvia pacientemente, e respondia com um inconfundível  “xá cumigo”, procure dona Honorina que ela anota e eu vou resolvendo na medida do possível”. “Mas deputado, é urgente!” ele geralmente dava um beliscão na barriga do solicitante e repetia “xá cumigo, já falei, vá lá e registre com dona Honorina”. Aí o infeliz já perdia a esperança, mas ainda assim ia lá enfrentar a megera. Com essa manobra ele enganava o eleitorado, ficava com fama de bonzinho, pois era a mãe quem atrapalhava tudo. Muitos diziam “O deputado, prometeu me ajudar, foi a mãe dele que interferiu, velha chata, megera. “Se não fosse aquela bruxa ele tinha resolvido meu problema”. E assim ia sendo eleito a cada quatro anos.

                          Certa feita, estando em dificuldades para credenciar minha clínica junto ao antigo INPS, pois só estava sendo liberado via política. Procurei os deputados do meu estado e solicitei ajuda a todos eles, inclusive da figura em epigrafe, para interferirem a meu favor no Ministério de Previdência e Assistência Social em Brasília. Todos prometeram interferir no processo no sentido de viabiliza-lo. Nosso deputado então me recebeu cordialmente: “Entre doutor, que prazer, como vai o Joaquim e a Odilia (meus pais). Seu cunhado resolveu aquele problema no Incra?”. Passou os primeiros dez minutos da conversa falando de coisas diversas e por fim perguntou “Em que posso ajuda-lo doutor?”  Expliquei-lhe a situação e recebi o velho “xá cumigo”, o ministro Jair é muito meu amigo e emendou: “Fale com dona Honorina, para ela registrar o pedido, mas xá cumigo, xá cumigo”. Saí desanimado, e já conhecendo o esquema, nem perdi meu tempo procurando dona Honorina. Fui embora conformado o que tivesse que acontecer com o meu processo não seria com a ajuda daquele embrulhão. Meses depois foi finalmente aprovado o meu credenciamento. Recebi quatro telegramas de deputados alegando terem sido os autores da façanha, inclusive do próprio. No dele estava escrito “Ministro sensível meu pedido pt. Credenciamento liberado pt. Espero contar seu apoio vg e família, eleições próximas pt”.  Respondi a todos com mesuras e agradecimentos floreados, mas a esse deputado especificamente mandei um telegrama com duas palavras “xá cumigo pt”.  Vá ser cínico assim no raio que o parta.

AVP-31/01/2020

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