Cansado de ser chamado de “gordinho do almoxarifado” Waldir resolveu tomar vergonha na cara e procurar um endocrinologista. De agora em diante seguiria à risca o que lhe fosse recomendado para perder peso. Fez os exames e na consulta de retorno recebeu uma prescrição que incluía estatinas para o colesterol, fribratos para os triglicérides, inibidores de apetite e até um ansiolítico pois o médico concluiu que sua gula era produto de ansiedade.  Além disso, foi encaminhado a uma nutricionista para uma reeducação alimentar. Na primeira consulta com a Dra. Nívea, não pôde deixar de notar a beleza e a desenvoltura da moça. Ela fez perguntas sobre sua alimentação, mediu, pesou, avaliou e por fim sorridente sentou-se na sua frente e começou a escrever as orientações. “Vamos inicialmente para a fase de ataque, mais adiante quando você tiver perdido peso suficiente, entraremos na fase de manutenção” disse ela enquanto escrevia três páginas de orientações e regras. O que era permitido, as quantidades, uma relação de itens proibidos, outra com as trocas e substituições possíveis entre os alimentos. Segundo ela, partiriam de uma dieta de 1500 calorias/dia. Não sabendo fazer as contas, pareceu-lhe um número razoável. Chegando em casa passou as recomendações à mulher, pois era ela responsável pelas compras, fez as recomendações pertinentes, nada de frituras, pouco carboidrato e outras “cositas mas’. No dia seguinte começou pelo leite desnatado e duas torradas sem manteiga, e partiu para o trabalho levando uma mexerica caso tivesse fome, comeu-a antes de chegar à empresa. Veio almoçar em casa, no refeitório da empresa não teria condições de obedecer ao regime imposto pela Dra. Nívea. Já chegou mal humorado, com uma fome de lobo, mal falou com a mulher e foi direto para a mesa que já estava posta. Ali encontrou salada, carne magra grelhada, inhame e berinjela. Quis reclamar, mas sua mulher já estava com a lista de recomendações da Dra. Nívea, conferindo as porções que ele colocaria no prato.  “Não, não” disse ela, “É um bife só, aqui fala 150 gramas” fumegando de raiva ele lembrava da doutora, “Por traz daquela cara bonitinha, ela quer é me matar, mas eu não vou lhe dar esse prazer”. Antes de voltar ao trabalho a mulher deu-lhe um pequeno embrulho com uma banana, caso sentisse fome. Saiu praguejando e assim que virou a esquina comeu logo a banana. A noite enfrentou o mesmo martírio, a mulher seguia fielmente as recomendações da nutricionista. “Só isso?”  perguntou ele com uma cara de sofrimento que dava dó, a mulher o consolou, “Antes de dormir tem um chá de camomila e duas bolachas de água e sal”.  – “Puta que pariu, será que vou aguentar?” pensou ele. Assim seguiu a rotina, A nutricionista foi caindo no seu conceito já estava pensando e se referindo a ela como “megera”. No quinto dia ao acordar sentia-se fraco, chegando ao banheiro viu as olheiras que haviam se formado em seu rosto, sentiu o estomago conversando com coluna. Subiu na balança, o que até ali tinha evitado para não se desencorajar, já tinha perdido três quilos.  A meta era perder vinte. “Tô ferrado, faltam dezessete!”, pensou ele.  Desceu para o café, e ao ver a caixa de leite desnatado e as duas torradas na mesa não aguentou e explodiu. “Clotilde, venha cá, chega dessa merda” a mulher assustada não sabia o que fazer, estava seguindo a lista.  “Quero ovos mexidos, presunto, pão francês, salsicha, e tudo mais. Quero meu café como antes”. Ela ainda quis argumentar, “Mas, e a lista da doutora?” – “Não quero mais saber daquela bruxa. Por culpa dela estou nessa fraqueza toda, caindo pelas tabelas. O regime acabou.  Entendeu, eu disse ACABOU, podem me chamar de gordo, gordinho, Elefante, Baleia o que quiserem, eu não vou me matar só para emagrecer. Não voltou ao médico, nem a nutricionista, e nunca mais falou em dieta. Aí deu a lógica: continua gordo.

AVP-06/02/2020

2 Comentários

  1. Certas dietas são muito difíceis, sem querer adquiri um úlcera, o médico cortou o açúcar, leite, cafeina, sobremesas e toda fruta ácida, sempre gostei muito de frutas azedas, é realmente, muito difícil.
    Gostei muito da crônica, você consegue retratar com nitidez a realidade daquilo sobre a qual escreve. Parabéns!

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