“Alô, seu carro está pronto, pode vir buscar”, era Aloísio, gerente do lavajato  avisando o freguês. Uns quinze minutos depois entra um homem bem vestido, com um relógio reluzente, sapatos finos, era Mário Bergamotto dono da madeireira do outro lado da rua, veio pegar seu carro, uma BMW preta que reluzia ao sol da manhã. Ao examinar o serviço, reclamou de maneira rude que tinham arranhado o painel com alguma coisa abrasiva, além de ter ficado muito mal lavado. Tentando ponderar que os arranhados já estavam quando o carro entrou, Aloísio propôs lavar-lo novamente na parte da tarde. Furioso, Mário exasperou-se e disse que seu carro nunca mais seria lavado ali, que já tinha sido informado da incompetência e da baixa qualidade dos serviços. Insistiu em levar porque era perto da sua empresa. Mas não voltaria nunca mais. “Vocês têm que aprender a ser profissionais” disse ele. “Mas estou explicando…” , Aloísio tentava falar e foi bruscamente interrompido “Cala a boca, senão te encho de porrada” – O sangue do gerente ferveu, mas pensou no emprego, tinha dois filhos pequenos e apenas disse “O senhor não pode falar comigo assim não”, Aí Mário partiu para a humilhação. “Não posso porque? olha bem para você, além de incompetente é pobre, e vai continuar pobre pois com um atendimento desse”.  Quis sair sem pagar. Diante da objeção de Aloísio, aproximou-se e  dizendo “seu bosta” desferiu-lhe um tapa de mão aberta na cara. Os colegas de trabalho tiveram que conter Aloísio a força enquanto Mario entrava no carro e partia em alta velocidade, quase atropelando um funcionário. Profundamente ferido em seu orgulho, Aloísio passou a ser uma pessoa calada, arredia sentia em sua alma que tinhas contas a acertar, e enquanto não o fizesse não teria paz. –  A madeireira foi vendida e ele nunca mais encontrou aquele “desgraçado”. O tempo foi atenuando  aos poucos aquela angustia que sentia, levou alguns anos até que quase não se lembrava mais.

               Doze anos depois Aloísio usou suas economias e foi com a família para a praia de Atalaia em Aracaju. Caminhando no calçadão, cruzou com um homem gordo de bermudas e chinelos que o cumprimentou com um “bom dia”  e seguiu seu caminho. Alguns minutos depois caiu a ficha “É ele, aquele gordo é ele”, deu alguns passos para trás, mas já não viu mais o homem. Armou-se de uma faca e durante seus dias de permanência voltou todas as manhãs para aquele trecho de praia ficando a espera.  No último dia viu o gordo tomando sol numa espreguiçadeira, aproximou-se devagar, cumprimentou o homem e perguntou calmamente “O senhor se lembra de mim?” O homem olhou bem para ele e disse você é de Petrolina não?” – Sim, eu trabalhava num lavajato em frente a sua empresa” O homem arregalou os olhos quando se lembrou e levantando-se disse “É verdade, tivemos até um entrevero por lá, mas aquilo é coisa do passado não é?” Aloísio sentiu a antiga raiva mais viva que nunca, mas pensando na mulher e nos filhos disse “É, ficou no passado”, deu um passo para trás, virou de costas para se afastar. Mas aquele homem tinha lhe causado muita dor e sofrimento por muito tempo, a fúria foi maior que seu juízo, sacou a faca e virando-se novamente enterrou-a até o cabo no bucho daquele “cachorro sarnento”. Ainda com a faca enfiada no abdome do desafeto proferiu em alto e bom som “SEU BOSTA”. Enquanto Mário Bergamotto tombava, manchando de sangue a areia branca, Aloísio continuou andando pelo calçadão com as mãos ensanguentadas até ser parado pelo polícia. Foi preso em flagrante, mas estava com a alma e a honra lavadas. Essa estória reforça o ditado “Quem bate esquece, que apanha jamais”.

AVP-12/02/2020

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