“Old Frog” era o nome de uma pequena pousada, na margem direita do Rio Araguaia, com alguns chalés, apartamentos e uma área para camping, na periferia da cidade de Britânia – GO. Em alguns feriados prolongados como semana santa, carnaval, Dirceno, o proprietário reunia ali parentes e familiares para curtirem uma convivência mais próxima em um ambiente alegre e festivo. Organizavam jogos, passeios de barco, gincanas e outras brincadeiras. À noite, ascendiam fogueiras para contarem causos, e desfilar as vozes nas rodas de cantoria. Para animar o ambiente, Dirceno convidava sempre uma dupla ou trio de cantores, o que aumentava a animação e o encanto do local. Naquele feriado específico, o convidado foi Barbosinha e sua esposa Dulcineia para fazerem a trilha musical do encontro. Barbosinha tocava um violão que dava para o gasto, porém sua voz não era lá das melhores. Já sua mulher era afinada e casava letras e melodias com uma incrível facilidade. Barbosinha sabia disso, mas era machista. Em sua cabeça, o artista era ele. A mulher era apenas uma coadjuvante. As pessoas pediam música para Dulcineia, mas o marido se adiantava e ele mesmo cantava. Vez por outra, ele  a deixava cantar uma música inteira, como ser a estivesse prestigiando. Bebida alcoólica correndo solta. Cerveja, vinho barato, e algumas batidas feitas artesanalmente por Arnaldo, um expert no assunto. Depois de algum tempo começaram os sussurros: “Ele podia deixar ela cantar mais”, ou “ela é muito melhor que ele”. O zum-zum foi crescendo, mas Barbosinha ignorava, e continuava a premiar a plateia com aquela voz estridente e anasalada. Lúcio, um pernambucano gordo e macilento, era frequentador assíduo desses encontros, devido a amizade muito próxima com Dirceno. Sua característica mais conhecida é que quando ficava bêbado, falava mais do que a boca. Incomodado com a situação, levantou-se alargou sua base de sustentação abrindo um pouco as pernas, atravessou lentamente a roda e diante de um Barbosinha empolgado, detonando uma canção chamada “Chalana”, falou com seu delicioso sotaque nordestino, escolhendo as palavras, pois não queria ser grosseiro:  “Amigo, não leve a mal não, mas , vamos fazer o seguinte: Você não cante mais não. Deixe apenas tua mulé. Tua mulé  dá de goleada em você. Fique aí tocando teu violãozinho, mas cantá, tu deixa com ela, que ela é 10. Não cante mais não visse?”. Barbosinha surpreso, demorou a reagir. Lúcio virou-se para voltar ao seu lugar, então veio a surpresa. Dulcineia tomou o violão das mãos do marido, e o quebrou com um golpe certeiro na cabeça do abusado, dizendo: “Nunca mais humilhe o meu marido seu idiota. Ele pode não cantar tão bem, mas é o meu homem, e eu exijo respeito”. O lual acabou, pois não tinha mais clima, nem instrumento. Todos se recolheram aos seus aposentos, a maioria pensando: “Isto é amor para mais de cem anos”. Os homens invejosos diziam: “Queria uma mulher assim, leal e companheira”.

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