Antes do amanhecer, avistaram as luzes da pequena cidade de Rio Maria. Estavam na estrada há dois dias, desde que deixaram Palmas em direção ao interior do Pará. Vinham convidados pela prefeitura, para se juntar ao programa de saúde da família do município. Joel, médico, com três anos de residência em clínica e cirurgia. Mara, enfermeira, juntou seus sonhos aos dele, e partiram rumo ao desconhecido. Encontraram-se há cinco anos na universidade, e moravam juntos há três. Não tinham se casado ainda pois Joel não terminara o divórcio litigioso com sua primeira mulher. Esperaram o dia raiar, tomaram um café na padaria, onde já despertaram as primeiras curiosidades. Em seguida, foram procurar o prefeito. Herculano Prata, já no segundo mandato, fez um discurso de boas vindas em frente à sua secretária, e em seguida saíram para conhecer o posto de saúde, e o esqueleto do que deveria vir a ser um pequeno hospital. Nestas condições o casal começou a desempenhar sua missão naquela comunidade. Sete anos depois, já tinham conseguido prestígio profissional. Terminaram a construção do hospital e o equiparam aos poucos. Agora realizavam atendimento à boa parte da região, faziam cirurgias de emergência, e algumas eletivas, partos, e outros procedimentos há tanto tempo ansiados por todos e assim ganharam dinheiro e popularidade. Ao mesmo tempo em que criava fama e prestigio, Joel começou a se envolver em política. Escolheu o lado da oposição e em pouco tempo foi escolhido candidato a prefeito. Eleito com uma margem pequena de votos,  começou a nova fase de sua vida, contra a vontade de Mara. Assumiu a prefeitura com os cofres totalmente vazios, dívidas de milhões de reais e um desemprego assustador para um município pequeno. Começou a trabalhar cada vez mais como prefeito, e menos como médico. Chegava atrasado para atender os pacientes, isso quando não cancelava a agenda. De médico atencioso, passou a médico apressado e ríspido. E foi aos poucos perdendo sua clientela para os médicos mais novos que àquela altura haviam chegado para a cidade. Mara estava possessa, viu sua casa virar “terra de ninguém”. As pessoas entravam sem cerimônia procurando por seu marido. Enquanto esperavam, abriam a geladeira, bebiam água, suco, o que tivesse pela frente. Agora com dois filhos pequenos, Mara fazia com frequência doces, bolos e outras guloseimas para as crianças. Tinha que trancar tudo nos armários. Se ficasse à vista, os “eleitores” comiam. Chegavam a qualquer hora, não respeitavam a intimidade da família. Era um tormento. – Joel seguia tentando agradar o povo, mas não era fácil. As demandas eram muito variadas, e quase sempre de iniciativas individuais. Um queria emprego para os filhos. Outro queria dinheiro para terminar sua casinha. Outro queria que a prefeitura arranjasse leito  de UTI, para uma paciente com mais de noventa anos, cega e com Alzheimer. Ele se sentia impotente, e ficava enrolando o povo, não podia simplesmente negar. Foi perdendo também o respeito como prefeito, pois não conseguia fazer nada. Mesmo sendo um homem honesto, começou a despertar suspeitas: “Não faz nada porque deve estar embolsando o dinheiro” e por aí a fora. Enfim, perdeu seu prestígio como médico e como prefeito. No quarto ano de sua gestão, mesmo com poucas realizações, chegou em casa um dia com uma decisão praticamente tomada: “vou partir para a reeleição”. Aí Mara sopitou. Chegou o dedo no nariz do marido de disse: “Chega Joel! Já aguentei demais. Você parece que está cego. A política não trouxe nada de bom para nós. Pelo contrário, atraiu oportunistas para nossa casa, afastou nossos verdadeiros amigos e tirou completamente a liberdade que tínhamos. Não temos tempo para nossa vida pessoal e familiar. Olha aqui, vou te dizer uma vez só. Se essa conversa de reeleição prosperar, pego as crianças e volto para Palmas e será o fim do nosso casamento. Fique você avisado”. Ficaram de carra amarrada um para o outro uns três dias, até que Joel aproximando-se da esposa disse: “Você tem razão. Eu não vou mais fazer política. Não posso permitir que ela me tire o que há de mais importante para mim, você e as crianças. Fase encerrada, vamos  ver se me recupero como médico”.  Essa cronica reforça o que um velho médico e professor repetia com frequência nos meus tempos de estudante: “O verdadeiro médico, só se realiza como médico. Pode até fazer outras coisas mas o que o gratifica mais, é desempenhar sua profissão com amor. Se ele não se sentir assim provavelmente não deveria ser médico”.

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