Saí do trabalho pouco depois da meia noite. Fechei as portas de aço do Bar do seu Marcos, na avenida Tocantins, e segui a pé em direção à rua oito, onde meu amigo Barreto, trabalhava numa lanchonete chamada “007 vitaminas”. Parava ali todas as noites, e depois que Raul, o gerente, saía, fazíamos um belo lanche com vitaminas, sanduíches, e algum chocolate. Então ajudava na limpeza da lanchonete, e seguíamos para casa. Morávamos no mesmo bairro, a uns dois quilômetros dali. Era uma rotina quase diária. Geralmente cruzávamos com as mesmas pessoas no caminho. Alguns vigias noturnos. Seu Antenor, dono da tabacaria real que também se dirigia para casa, Cristóvão, garçom do Grande hotel, alguns travestis e prostitutas na Avenida Goiás, tradicional ponto de “trotoir “. Naquela noite específica tinha algo de diferente no ar.  As luzes ainda estavam acesas na tabacaria. Curiosos e apreensivos nos aproximamos para ver o que se passava. Poderia ser um assalto, quem sabe? A porta dos fundos estava entreaberta e ouvia-se vozes lá dentro. Barreto tinha mais coragem do que eu e entrou primeiro, fui me esgueirando para dentro com o coração batendo a mil. E se fossemos descobertos?  A mulher de vermelho esbravejava com seu Antenor, que encolhido num banquinho ouvia calado aquele desabafo.

        — Seu cachorro! Eu sabia que um dia ia te encontrar. Já fazem seis anos que você saiu para comprar aquele frango para o almoço de domingo, e não voltou. Todos pensam que você está morto. Mas eu tinha certeza que não.  As meninas até já se conformaram, dizem aos amigos que o pai morreu ao cair de uma ponte, e nunca encontraram o corpo.

           –Que isso Clarinha? Que brabeza é essa?  Eu ia te avisar, mais sabe como é, o tempo foi passando e eu acabei perdendo a coragem. Você quer saber porque fugi do Maranhão? Vou lhe contar.

              Senti vontade ir embora, mas Barreto me conteve e disse baixinho, “fica quieto, vamos ver o final dessa fofoca”. E seu Antenor continuou:

            — Fui ameaçado.  O Felício mandou os jagunços dele me avisar. Se não pagasse em dois dias o que lhe devia, ia mandar me matar. Eu não devia tanto, mas aquele agiota filho da puta é impiedoso, não aguentei a pressão e dei no pé.

             — E essa vagabunda que você arrumou?

            — Não fale assim da Esmeralda, ela não teve culpa.  Cheguei aqui sozinho e sabe como é. A solidão bate doído, e aí conversa vai, conversa vem, ela caiu no laço e eu “krau”. E estamos juntos até hoje. Mas e você? Não venha me dizer que uma mulher nova, bonita e fogosa não reconstruiu a vida.

            — Engano seu imbecil, passei alguns dias na pior, depois que partiste, mas logo percebi que o homem da minha vida estava bem ali ao meu lado, e eu o ignorava. Então  fomos nos aproximando, conversa vai, conversa vem e ele “krau”.  Estamos vivendo juntos há três anos.

           — E quem é ele mulher?

           — Felício, o agiota.

          –Então Clarinha, estamos quites. Mas por favor, não diga onde estou, e nem que eu o chamei de fdp. Ele ainda pode mandar atrás de mim.

              Comecei a rir e saímos correndo porta afora. Seu Antenor tentou nos perseguir por alguns metros mas desistiu, e voltou para continuar discutindo a relação com Clarinha. E eu, desde aquela noite, fiquei com um pé atrás com as mulheres. São falsas.

AVP/MAR/2020

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