O fiscal chegou meio de surpresa e diante de uma secretária sobressaltada, perguntou pelo proprietário da empresa. Com uma voz fraca Valquíria balbuciou: “Ele ainda não voltou do almoço, mas já deve estar chegando, se o senhor quiser pode esperar, sente-se ali por favor”. Marçal era um fiscal veterano, muito conhecido por sua maneira peculiar de atuar. Revistava tudo, e dificilmente deixava passar alguma irregularidade. Era severo em suas punições, mas sempre lembrava ao comerciante, que havia uma maneira mais fácil de resolver o assunto. Ponderando que uma mão lava a outra, que lei nem sempre é justa, arrastava a conversa para o campo da chantagem, e do achaque. Não demorou muito e o Seu Vilela chegou. Valquíria apresentou o fiscal ao patrão, e saiu para a copa em busca de água e café para ambos. Marçal começou pela análise dos documentos de constituição da empresa e meia hora depois pediu para ver os blocos de notas fiscais dos últimos três anos. “É muita coisa, você vai ter que me dar um tempo para reunir tudo, pelo menos dois dias, pode ser?” O fiscal fez uma cara estranha e logo marcou posição: “Os documentos devem estar à disposição da fiscalização na hora em que forem solicitados. Mas tudo bem, vou conceder esses dois dias”. Despediu-se e foi embora. Quando voltou, dois dias depois, Marçal encontrou pequenos montes de blocos espalhados pelo chão, separados pelos anos correspondentes. Começou a trabalhar sem pressa, confrontando qualquer pequena suspeita, rasuras, imperfeições no preenchimento. Seu Vilela continuava em sua mesa fingindo que estava trabalhando, mas de olho no fiscal, de quem, já conhecia a fama. Marçal pediu as notas fiscais de entrada, Valquiria correu para providenciar, pois não tinha se lembrado delas. Quando voltou com as notas, seu Vilela perguntou “Trouxe tudo valquíria?” A moça simples, sem experiencia, nem malícia, aquele era o seu primeiro emprego, respondeu com candura: “Trouxe sim, Seu Vilela, ficaram lá ágora só aqueles registros das vendas sem nota, era para trazer também?”. Seu Vilela ficou pálido, quase caiu da cadeira, tomou um gole de água e disse: “Não”, bem seco, torcendo para o fiscal não ter entendido. Mas uma dessas, jamais passaria despercebida pelo veterano fiscal. Marçal examinou mais algumas notas e deu o trabalho por encerrado. Dirigindo-se a mesa de Seu Vilela, sentou-se calmamente, mesmo sem convite e disse: “Parabéns, não encontrei nada significativo no que examinei”. Seu Vilela quase pulou de alegria pois parecia que o fiscal não tinha ouvido a imprudente revelação de Valquíria.  Depois de uma longa pausa, o velho fiscal chamou seu Vilela num canto da sala, pôs-lhe a mão no ombro e soltou o torpedo: “Agora, quanto as vendas sem nota, vou fingir que não ouvi, e vou mandar um portador para pegar dez mil reais em dinheiro, na semana que vem. Combinado?). Seu Vilela ainda pálido, sentiu a raiva lhe subir à cabeça e pensou: “Que filho da puta! Eu devia denuncia-lo.” Mas, ciente de que, se o homem esmiuçasse mais a fiscalização seria muito pior disse apenas:  “Semana que vem não, na outra pode ser?” e fecharam aquele vergonhoso acordo. Era o roto, enquadrando o esfarrapado. Numa situação destas é provável que que Valquíria tenha sido demitida. Coisas da vida.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.