Olhei pela janela e vi um caminhão parado em frente ao verdurão do Félix, descarregando mercadorias. Saí pé ante pé do apartamento, pois minha mulher também faz parte da patrulha. Chamei o elevador que veio vazio felizmente.  Passei pela portaria rapidinho, mas quando fui abrir a porta para sair ouvi o porteiro dizer: “Aonde o senhor vai doutor?, o senhor tem que ficar em casa. Ordem do governador”. já saindo falei. “Só cinco minutos, vou ali comprar um queijo”. Saí na calçada, olhei a rua nos dois sentidos e não vi ninguém, e fui andando devagar em direção ao Félix, que não é mais que uns 200 metros de minha casa. Nesse pequeno trajeto ouvi alguns impropérios vindo das janelas dos apartamentos: irresponsável, velho rebelde, teimoso e outros adjetivos. Quando cheguei, Valdete, a moça do caixa, assustou-se quando me viu. Parecia olhar para um ET e foi logo dizendo: “Doutor, era só telefonar que a gente entregava”. Mal ela sabia que o queijo era só desculpa para sair um pouquinho  da gaiola. Pequei o embrulho, paguei e pensei: “Vou acabar de dar a volta no quarteirão, não vai fazer muita diferença” Desci mais uns cinquenta metros e virei a direita, me deliciando com aquela liberdade momentânea quando passou um carro e o motorista gritou “VAI PRA CASA VÉI!!!”.  O primeiro impulso que tive foi manda-lo tomar no **. Mas não ficaria bem, afinal sou um homem educado. Me contive, ate porquê, pensando melhor, ele de estava de certa forma zelando pelo meu bem estar. Já tinha dado a volta no quarteirão e voltava para casa, quando fui abordado por uma viatura da polícia que rondava por ali.  O Tenente, muito educado e medindo as palavras disse: “Meu senhor, para a sua segurança, volte para casa e permaneça lá enquanto passa essa onda de vírus, eles estão em toda parte. Na sua idade é melhor ter cuidado”. Agradeci ao policial, dizendo que morava ali naquele prédio da esquina, e finalmente cheguei. O porteiro já tinha ligado para minha mulher, aquele fofoqueiro. Entrei em casa, tomei uma descompostura da patroa, porque além de tudo, ela já havia feito compras pela internet, inclusive queijo. Não sei se valeu a pena levar tanta reprimenda, mas pelo menos dei uma volta no quarteirão. E vírus mesmo, cá pra nós, não vi nenhum.

 

 

 

3 Comentários

  1. Eu, Synture Rawa Hahamovici,continuo a abençoá-lo, Ailton, pela injeção de bom humor que nos aplica nestas duas excelentes crônicas!!!!! Vamos vencer!!!! Este ‘ vírus rei’ ‘ veio nos ensinar muita coisa….. inclusive, a vacuidade de nossas vaidades e apegos materiais e a importância de voltar-nós para nosso interior!! Aproveitemos bem este confinamento distópico e necessário!!!!

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