Ao me levantar todos os dias, dou uma olhada no tempo, e pelo aspecto semi-deserto da cidade, me convenço que é domingo. Peço ao porteiro para por o jornal no elevador e mandar para mim. Leio, pulando as páginas que falam sobre meu carcereiro, o corona, sobram então umas duas ou três, falando de temas econômicos, sociais, culturais e, os classificados, estes cada vez menores.  Relaxo, ouço o canto dos pássaros, bem mais audíveis no silencio de domingo e me sinto um privilegiado. Sim, porque tenho todo o dia para me refazer e recuperar as energias para enfrentar a segunda feira. Leio um livro de contos de Anton Tchekov, muito bom por sinal, além de servir de subsídio para os meus próprios escritos. Evito os noticiários televisivos tão pouco confiáveis e tão contraditórios. Preciso me concentrar, amanhã será segunda feira, e preciso estar com força total para o trabalho. Que horas será o almoço? Ao meio dia? As duas? tanto faz, hoje é domingo mesmo. Vou me arrastando preguiçosamente pelo dia. No fim da tarde faço ginástica acompanhando uma aula de aeróbica na TV. Não faço nem a metade dos movimentos, mas sou insistente. Lembrei de um hobby antigo, ressuscitei  algumas partituras de violão e voltei a toca-las. Tão mal quanto antigamente, mas me ajuda a passar esse domingo. A noite chega, já descansei o dia todo, me sinto cheio de gás, amanhã vou me entregar com força total ao trabalho. Ligo a TV a cabo, assisto um ou dois filmes, ate o sono chegar. Vou para a cama feliz, me sinto cheio de energia. Amanhã ninguém me segura. Vou trabalhar como nunca. O Brasil precisa de seus filhos e eu estou disposto a fazer a minha parte.  Acordei cedo, e quando estava tomando uma ducha, minha mulher perguntou se eu pretendia ir a algum lugar. “Trabalhar é claro! Afinal é o que sempre faço de segunda a sexta, e hoje é segunda”.  ela então subiu um pouco o tom de voz dizendo “Volte Já para a cama. Você não vai trabalhar coisa nenhuma”, meio assustado com a bronca, falei: “Mas, Mariana, hoje é segunda feira”. Ela fazendo uma careta estranha disse: “O que? Você ficou louco? Hoje é domingo homem. E até o final desse pesadelo vai ser sempre domingo entendeu”  Meio confuso, atravessei o quarto e abri a cortina: Tudo parado, a cidade morta. Então me conformei e voltei para a cama. É domingo de novo. Amanhã também será, depois de amanhã também… sempre domingo.

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