Com mais de quinze dias de quarentena, resolvi das umas voltas no Parque Areião. Uma pista larga, com cerca de 2.800m, ideal para quem queria tirar as teias de aranha das articulações. Fiquei surpreso ao ver um vendedor de côco trabalhando, com um olho no freguês e outro no carro da polícia que passava. Por decreto do governador, ele não deveria estar ali, e sim em casa. Quando terminei resolvi tomar uma água de côco, me dirigi para a barraca. O vendedor, um homem de vinte e poucos anos, desafiava flagrantemente o decreto governamental. Perguntei a ele a razão de sua postura, e ouvi o seguinte relato: “Olha doutor, tentei obedecer por achar que estava certo. Na televisão se alardeava o terror. Fiquei com medo de me contaminar e levar para minha mulher e minhas filhas. Me preparei, comprei um pouco mais de  mantimentos e outros artigos, e fiquei em casa. Agora ja acabou tudo. Não tenho de onde tirar  meu sustento a não ser como vendedor ambulante. Geladeira e armários vazios me obrigaram a botar a faca nos dentes e desafiar o governo. Veja o senhor. Cheguei aqui as 6:00 da manhã e abri parcialmente a barraca. Temia que a clientela nem fosse aparecer, que estivessem todos confinados em casa. Mas não, tem muita gente saindo para fazer caminhada, compras, e mesmo para dar uma desestressada fora das casas e apartamentos. Tenho medo que a polícia venha e me mande para a casa, mas enquanto não vier vou vendendo. Até agora (10 horas) já vendi uns 80 reais. Já dá para reabastecer parte do que já acabou. Como eu, tem milhares de pessoas na mesma situação. Esse auxilio em dinheiro que o governo está prometendo, nem sei se vou ser habilitado, e nem quando sai. Agora, a fome dos meus filhos é pontual, e tenho que fazer alguma coisa”.  Paguei o côco e fui embora pensando que ele realmente não tinha alternativa. Se tem uma coisa que não espera é a fome, sobretudo das crianças. Não fiz a ele nenhum tipo de censura e nem tinha o direito. Na situação dele eu próprio faria o mesmo. Temos muitos Brasis dentro do Brasil, e alguns deles realmente não vão poder esperar. E não haverá como o governo reprimir isso. Provavelmente amanhã   outros vendedores vão aderir a ele. E porteira que passa um boi, passa uma boiada. A ajuda do governo pode até chegar, mas vai demorar, nesse meio tempo, o instinto de sobrevivência falará mais alto. O vírus que nos desculpe.

AVP-02/04/2020 (durante a pandemia covil-19)

1 Comentário

  1. Mais um texto muito bom e sensato!!!! Eu, Synture Rawa Hahamovici,digo sempre: estamos todos sob a mesma tempestade,só que cada qual em seu barco particular,sim. Uma situação superlativamente grave e critica,acarretando resultados e consequências diferentes para tal ou qual pessoa. Sim,a fome é a pior das feras e das pestes,e o instinto de corpos- o instinto de sobrevivência – é fortíssimo é inescapável e reina absoluto,com uma coroa tão pesada quanto a deste coronavírus. Vale a metáfora,até porque,uma coisa é a quarentena dentro de uma mansão cheia de recursos e outra ,numa casa humilde,visitará pela carestia e pela pobreza. Queira Deus que acordemos logo de todo este pesadelo, como pessoas maiores e melhores,para que algo pior não surja….. Deus nos valha….. não odiemos o NCV e sim,acautelemo-nos com o vibrião astralino do pavor e da maldade de todo tipo……

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