Cansado de dormir, levantar, olhar pela janela, escrever, pensar em soluções para o Brasil, Espanha, Itália, Iran, França, Estados Unidos, São Paulo, Goiânia e São Luiz de Montes Belos. Enfastiado de assistir noticiários repetitivos e monotemáticos, de ver filmes clássicos, lançamentos, séries. As comédias já nem me divertem mais, estou com o riso gasto. Cansado, entediado, me sentindo fudido, paralisado, inútil, peso morto, mas ainda  vivo. Tento a todo tempo fazer alguma coisa que segure a sanidade dentro de mim. Já contei e conferi centenas de vezes quantos passos tem da sacada da frente ao meu quarto de dormir, e da área de serviço até o escritório. Esta manhã resolvi inventar algo inédito. Peguei um pacote de arroz de cinco quilo, derramei numa vasilha de plástico, me acomodei confortavelmente e comecei a contar os grãos. Descobri durante esse tedioso período que tenho curiosidades que nunca suspeitava. Quantos grãos teria ali? Fui contando cuidadosamente, a cada cem separava um para facilitar e não perder a conta. Passatempo delicioso. Já estava ali há uns quarenta minutos quando ouvi: “Benzinho, venha cá por favor”  era minha mulher com seu senso de urgência. “Um minutinho querida, já vou” e continuei contando para chegar à próxima centena e não perder a conta. Quando ela chamou eu estava no 16, para chegar a 100 demora alguns segundos né? Logo ouvi de novo “bem venha cá” . Cadê o benzinho e cadê o por favor. Tratei de completar logo os cem e fui ver o que era. “Olha o que recebi no WhatsApp” disse ela apressando-se em me mostrar. Pensei: “não é possível, eu fazendo coisa mais importante e ela me chama para mostrar bobagem”. – Voltei para a contagem dos grãos.  Previa passar ali um bom pedaço do dia até contar todos. Quando me cansava completava aquela centena, marcava e ia tomar um copo d’água, um café, esticava o corpo e voltava. Já estava para lá da metade, quando meu filho chegou, com meu neto de quatro anos. Violando as normas, abracei fortemente o garoto, estava com saudades. “Vovô, o que você está fazendo?”, perguntou alegremente. Não resisti, puxei-o para o meu colo, e antes que eu completasse a explicação, ele passou a mão e misturou tudo de novo. Foi como se ele me dissesse, “vovô, vamos brincar, isso aí não é tão importante”. Guardei a vasilha com o arroz e fui brincar com meu neto. Foi de longe a melhor coisa do dia. Nada podia ser mais importante.

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