Caminhando a passos largos, a mulher chegou à delegacia bem na hora em que o delegado Delmiro saía para o almoço. Era um homenzarrão barrigudo, devia pesar por baixo uns 130 kg.  “Delegado, preciso falar com o senhor” gritou aflita dona Geralda antes que o xerife entrasse na viatura. “Volte em duas horas, estou indo almoçar”. disse ele abrindo a porta do carro. “Mas é urgente delegado, meu marido me bateu”.  – “Só faltava essa” pensou Delmiro, dando meia volta para escutar a mulher. Ela esbaforida começou o relato: “Ele é um homem bom, mas acho que essa quarentena está mexendo com o miolo dele. Pedi para ele passar um pano na casa, lavar o cachorro, arrumar o telhado, consertar a cerca, e cortar a grama. E nem estava com pressa, falei que até o final do dia estava bom” O delegado escutava impassível, mas pensando “Um cara preso dentro de casa, sem poder ver os amigos, tomar uma cerveja no boteco, sem futebol para ver na televisão, ainda com uma mulher mandona dessa, tá mesmo é lascado”. E dona Geralda continuava a narrativa. Ao mesmo tempo que acusava, defendia o marido: “Tudo tarefa fácil delegado, só que ele ficou fora de si. Levantou  e me deu o primeiro pescoção, eu bambeei mas não caí. Sem saber o que estava fazendo, acertou um murro na minha testa. Aí eu já caí gritando por socorro. ninguém apareceu. Ele estava completamente descontrolado tudo culpa desse bosta desse vírus. Se eu pegar ele na reta…”. O Delegado interrompeu e perguntou “O que a senhora quer que eu faça exatamente? A senhora acusa e defende ao mesmo tempo. Quer que eu prenda seu marido ou o vírus? Ok, vamos fazer o seguinte: vou prender seu marido,  trazer para cá, jogar numa cela e mandar os agentes dar um corretivo nele, tá bom assim?” Aí Dona Geralda recuou: “Não doutor, também não precisa isso tudo não. Isto é uma situação passageira, quando passar essa merda dessa epidemia Deodato volta a ser o homem bom que sempre foi. Dá só uma bronca nele, ameaça de prender na próxima. Estas coisas mais brandas. Tadinho…”. Então o delegado dando de ombros disse “Tá bom minha senhora, agora me deixe ir almoçar que estou numa fome miserável”, anotou o endereço dela, entrou na viatura e partiu. No caminho foi refletindo que nos últimos dias sua delegacia estava um tédio. Pouquíssimas ocorrências. Parece que até a criminalidade se escondeu do vírus. Pelo menos isso ele trouxe de positivo. Então decidiu que depois do almoço passaria lá para dar um esbregue no valentão. Não estava fazendo nada mesmo.

AVP-18/04/2020

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