Era a primeira vez que Gertrudes desafiava a mãe. Pronta para sair antes das sete da noite, foi questionada por dona Matilde: “onde vai a esta hora menina? E pintada desse jeito, não vê que é perigoso?” Com ar de impaciência a moça respondeu: “Vou cuidar da vida mãe. Alguém tem que ganhar algum dinheiro nesta casa. Estamos vivendo há anos desse bolsa família. Não podemos depender do governo a vida inteira”. Morena bonita, com dezoito anos de idade, Gertrudes ouviu a sugestão de uma amiga para se tornar uma profissional do sexo. Foi seduzida pelo relato do dinheiro fácil e de discrição absoluta. Levada a  uma agência de “modelos” pela amiga, fez uma pequena entrevista e recebeu as exigência de alguns exames de saúde. Tendo sido aprovada, deixou seu celular a disposição da agencia para os primeiros contatos. Com experiencia limitada a três namorados, tinha uma ideia  distorcida do que a esperava. Pensava em homens gentis, educados, cavalheiros. Mal sabia que na verdade era um tiro no escuro. Encontraria homens bêbados, violentos, pervertidos. – Naquela noite estava ansiosa esperando pelo primeiro contato telefônico, o que aconteceu por volta das vinte horas daquele 26 de abril, transformando-a oficialmente em prostituta. Enviada a um pequeno hotel  em Copacabana, foi ao encontro de seu primeiro “cliente”. No começo sentiu-se desconfortável, mas foi aos poucos se acostumando. A Agência ficava com parte do dinheiro, mas ainda assim, passou a conquistar coisas que antes nem imaginava. Melhorou seu padrão de vida, levou a mãe para um local mais confortável. Até aí, dizia que trabalhava no restaurante de um hotel, e que preferia dormir por lá por medo de assalto. Hoje, com quase dez anos de “estrada” tem uma visão bem mais completa do mundo em que mergulhou. “É tudo ilusão. Enquanto a beleza dura é mais fácil, a procura é grande, você pode selecionar a quem atender. Mas assim que o tempo passa, você vai sentindo os rigores daquela vida insana. Passa a ser considerada muito “rodada”, as chamadas diminuem e a qualidade dos clientes também. A saúde entra em declínio e sua autoestima vai junto. Dei muita sorte ainda, porque no meio da descida encontrei um ser humano iluminado, que viu em mim mais do que o corpo. Já fora da agência, encontrei Daniel num pequeno restaurante onde tomava refeições. Desde o primeiro dia, notei nele um homem diferente de todos os outros. Pessoa simples, representante comercial, três anos mais novo que eu. Começamos a nos ver seguidamente, e a atração crescendo a cada dia. Abandonei a vida de antes, arranjei um emprego, por coincidência no restaurante de um hotel. Estamos vivendo juntos há três anos, numa rotina de amor e amizade. O que mais lamento, é minha mãe não estar mais viva para ver minha reabilitação. Morreu com a certeza da filha prostituta.

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