A estrada pedregosa serpenteava morro acima em direção à casa de pedra, sede da fazenda Alambique. Germano dirigia lentamente enquanto pensava na história daquelas terras. Ali,  por várias gerações viveram os Junqueira. família de gente braba, marcada pela prática do coronelismo, impondo sua vontade e suas decisões com ações truculentas e desumanas.  Onde quer que entrasse um Junqueira, o ambiente carregava. Pessoas se esquivavam pelos cantos, temendo testemunhar atos de selvageria e barbarie. Há muitos anos ele não voltava ali. Desde que, ainda menino, viu seu pai escorraçado pelo último dos coronéis, Virgílio Junqueira. Vivendo numa pequena propriedade de pouco mais de 40 hectares que fazia divisa com a grande fazenda dos Junqueira, e que por dar acesso ao rio claro era objeto de grande cobiça. Primeiro ofereceram-se para comprar por um valor que beirava ao irrisório. Oferta recusada, começaram as pressões visando intimidar Seu Antero, que fez uma ocorrência na delegacia de Jataí. Olhando-o de cima a baixo, o delegado  sorriu dizendo: “Venda logo, senão você vai ter sérios dissabores. Além disso o preço não é tão ruim”. Mostrando ares de intimidade com o coronel, o delegado prosseguiu: “O compadre Virgílio é um homem generoso, venda logo a terra e vá cuidar de sua vida, o preço que ele está oferecendo é mais do que justo”. Sentindo-se desamparado pela lei Seu Antero viu seus esperanças diminuirem. Pouco tempo depois, após um incêndio  suspeito em seu celeiro, não aguentou mais e vendeu a terra a preço de banana para o coronel mudando-se com a mulher e os três filhos para a Capital. Germano nessa época com oito anos de idade.  Agora aos quarenta, era advogado e trabalhava na vara de falências no fórum estadual. Quase nunca lê aqueles editais infindáveis e monótonos, mas naquele dia alguma força o moveu, em pouco tempo reconheceu que a fazenda que estava indo a leilão era a dos Junqueira. Depois que se mudaram dali, nunca mais tiveram notícias daquela família. Nesse meio tempo aconteceram algumas tragédias que arrasaram com os Junqueira. Seu único filho desentendeu-se com um dos empregados da fazenda, e foi assassinado a poucos metros dele, que nada pode fazer.  Daí em diante, viveu apenas para a vingança, nunca mais se recuperou, virou alcoólatra e foi abandonado pela mulher. Seus negócios foram de mal a pior, e agora enfrentava aquele processo movido pelo banco. Germano instintivamente inscreveu-se para participar do leilão, juntou suas economias com um empréstimo a juros facilitados, e no dia fez uma despretensiosa oferta, e para sua surpresa saiu vencedor. Chegando a antiga sede da fazenda, agora com ar de abandono, avistou um senhor vindo em sua direção. O Homem trôpego, encurvado, muito magro se aproximou devagar. Germano quase não acreditou ao reconhecer o velho coronel. Dava pena, mas a vida é assim mesmo, aqui se faz, aqui se paga. Entregou alguns papeis a Virgílio Junqueira e disse: “Vim tomar posse da fazenda Coronel, sou o novo dono”.

 

AVP-ABRIL/2020

 

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