Já passava das três da tarde. Dona Olinda pedira ao neto de 15 anos para comprar um remédio de uso diário para o coração. O garoto pegou o dinheiro por volta da uma, e não voltou. A farmácia era muito perto, três quarteirões apenas. Ela mesmo teria ido comprar se não estivesse confinada em casa, com artrose nos dois joelhos.. Agora estava preocupada com o neto. Ligou para sua filha no trabalho e narrou o ocorrido. Ouviu dela pedidos de calma, ele está por aí com algum amiguinho. Voltou afazer seu tricô, só lhe restava esperar. Assim que virou a esquina o garoto fez as contas e viu que daria para comprar uma “trouxinha” e dois “papelotes”. Então não teve dúvidas, seguiu pela rua até uma praça arborizada no centro de Araçatuba, onde um rapaz exercia as funções de sorveteiro e traficante. Pediu um sorvete, e por meio de mímica revelou o que realmente buscava. Foi atendido e se deslocou até um local perto de uma ferrovia abandonada onde outros garotos já estavam consumindo drogas. Então perdeu a noção do tempo. Duas horas depois, lembrou-se do que saíra para fazer. Voltou à farmácia, comprou o remédio fiado, na conta de sua mãe e só então voltou para casa. Disse à avó que comprara sorvete com o troco. Aliviada com a volta do neto, Dona Olinda nem ligou. Com o passar do tempo, o garoto começou a ficar inquieto, irritadiço, acordava cansado, parece que não dormia direito. Suas notas começaram a abaixar e o número de faltas a aumentar. Nesse período Dona Olinda começou a perceber que o neto não largava o celular para nada. Trocando mensagens e falando o tempo todo. Alertou a filha, mas não teve a atenção que esperava. Talvez por trabalhar muito, Ivanilda se sentia culpada de não acompanhar o desenvolvimento do filho como gostaria. Então, cobria o garoto de mimos e presentes. Os quais, em pouco tempo ele começou a vender para sustentar seu crescente vício. A avó começou a dar falta de alguns objetos que tiveram o mesmo destino dos presentes. As coisas foram piorando assim como as suas companhias. Logo após completar 16 anos Bruno fugiu de casa. Pelas informações que obtiveram ele teria ido para São Paulo. Sem recursos para procurar, Ivanilda e Dona Olinda entregaram nas mãos de Deus, e da Polícia. Uns seis meses depois, abriu um jornal e reconheceu o filho  numa vala, com uma tarja preta nos olhos. Perdeu para as drogas. É possível que esta história guarde semelhança com muitas outras ocorridas nos lares brasileiros ao longo do tempo. Para mudar, só com profundas transformações sociais, com ênfase especial para a educação.

 

AVP-MARÇO/2020

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.