Até cerca de vinte e cinco anos atrás, os pacientes que chegavam aos consultórios médicos, tinha um nível de informação pequeno ou nulo quanto as suas possibilidades diagnósticas. Isto dava ao médico uma vantagem, pois podia raciocinar livremente dentro dos seus conhecimentos, solicitar exames, receitar uma medicação sintomática e agendar nova consulta, isto lhe dava tempo para estudar aquele caso específico. Formulava umas três hipóteses mais prováveis, e com auxílio de exames complementares laboratoriais e/ou de imagem, fazia o diagnóstico diferencial entre elas. Hoje a coisa mudou. Quando o paciente chega, já trocou opinião com várias pessoas pelo WhatsApp, mandou fotos da lesão, consultou vários sites no google e já tem uma opinião formada sobre seu quadro, como se trata, a evolução esperada muitas vezes já antecipou vários exames pois “o médico ia pedir mesmo”. Então cria-se a seguinte situação.

     —Bom dia doutor.

     —Bom dia Dona Geralda, como vai a senhora.

   —Ah, doutor, é gastrite. Pelo que estou sentindo, e é igual ao que a Claudete minha prima sente. O médico dela falou que é gastrite. E ele e um médico muito bom, formou foi na Federal. E depois minha filha olhou na internet e confere, é gastrite mesmo.

    —-Olha Dona Geralda, existem várias doenças que podem apresentar o mesmo grupo de sintomas. Vamos fazer um check-up, faz tempo que a senhora não se consulta. Vamos pedir alguns exames para avaliar melhor o que a senhora tem.

   —-Já trouxe tudo aqui doutor, sabia que o senhor ia pedir. Exame de fezes, urina, sangue, ultrassom de abdome, chapa de pulmão e até o preventivo que fiz no ano passado.

       Contrariado o médico se sentindo desprestigiado, com aquela paciente passando o carro na frente dos bois. Sem perder a compostura, mas intimamente repetindo para si mesmo:  “O médico sou eu, quem ela pensa que é para chegar aqui impondo um diagnóstico desta maneira”. Então disse calmamente:

    —-Dona Geralda, realmente aí estão alguns exames que eu preciso. Mas ainda vou precisar de uma endoscopia digestiva alta. Não podemos simplificar as coisas desse jeito, pode ser uma úlcera, um tumor, ou alguma outra doença.

    —-Para quê doutor? Pois na internet já deu que é gastrite. Passa logo ranitidina, omeprazol, essas coisas. Tá bom, se o senhor insiste vou fazer a tal endoscopia, mas que é gastrite é.

        O médico aliviado pois não aceitava perder aquela argumentação, rapidamente solicitou o exame e marcou o retorno da paciente após dez dias. No dia combinado, assim que o médico chegou, ainda no corredor a caminho do consultório, ouviu uma voz de mulher vindo da recepção.

     —Não adiantou teimar doutor. O resultado deu gastrite.

          De rabo de olho ele viu Dona Geralda acenando alegremente. Teve que engolir, mas agora pelo menos, tinha um embasamento confiável.

AVP-17/05/2020

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