O ASSÉDIO…

                   Quando ouviu o sino, Josefa se arrumou rapidinho, colocou o xale, pegou o rosário e em passos rápidos entrou na igreja pela porta da sacristia. Morava perto, duas quadras apenas e há anos auxiliava na celebração das missas. Quando chegou, o padre Viriato já colocava a batina. Enquanto  ajudava o vigário com os últimos paramentos disse a ele que precisava se confessar. O padre assentiu com a cabeça, mas disse que não dava tempo, que deixasse para depois da missa. Josefa sorriu maliciosa, adorava aquelas confissões mais prolongadas sem fila e sem interrupções. Nunca se casara e já andava pela casa dos cinquenta. Sua vida era dedicada ao trabalho na biblioteca da escola estadual José de Assis, a cuidar da casa onde moravam ela e uma sobrinha, e aos afazeres da paróquia, aos quais  já se dedicava há mais de vinte anos. Já tinha se acostumado as maledicências  do povo da cidade, e já não ligava por ser conhecida como “a mulher do padre”. Viriato só estava na cidade há dois meses, mas já tinha notado a extrema dedicação  de Josefa às coisas da igreja e da comunidade, e os mimos e elogios que dedicava a ele. Enquanto se dirigia ao altar pensou que após a missa iria conversar com ela, pedir que não misturasse as coisas, explicaria o significado e a importância dos votos do celibato que havia feito. Tentaria livrar aquela ovelha das tentações terrenas. Durante a missa Josefa não deixou transparecer suas expectativas. Com cara séria ajudou  na celebração, e apenas com um entusiasmo mais marcante puxava os cânticos pertinentes. Ao final da celebração, alguns fieis foram até o Padre para aconselhamentos, agradecimentos, e o retiveram por mais uns dez minutos antes que voltasse à sacristia, onde Josefa impaciente esperava, preparadíssima para a sua “confissão”, suando de ansiedade. Ali era sua praia. Os padres excetuando-se os muitos velhinhos, e alguns resistentes por aversão, recebiam naquele palco seus arroubos eróticos. Ao entrar, o vigário reparou que ela o fitava com olhos brilhantes, e tinha  na face o rubor do desejo, pois ele ainda se lembrava como era isso. Deu alguns passos, tirou calmamente a estola e a batina, e virou-se para ela já em roupas normais para dar aquele sermão que planejara. Não deu tempo, Josefa enroscou-se com ele num abraço lascivo e despudorado. Tentou se livrar dizendo “calma irmã, vamos conversar, eu sou um sacerdote”, mas Josefa estava decidida há tempo que não sentia os prazeres mundanos. Desde que o padre Dioclécio partira seu corpo passou a queimar por dentro. Era agora ou nunca. Viriato fez mais algumas tentativas para escapar, mas finalmente sucumbiu aos apelos da carne. Esticando o braço para trás ainda sob o domínio total de Josefa, trancou a porta da sacristia. Daqui para a frente é segredo de confessionário.

AVP-18/05/2020

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