Fazia um calor infernal, o velho ventilador espalhava aquele bafo quente por toda a delegacia. O delegado Rebouças olhava por cima dos óculos a dupla de ladrões presa em flagrante roubando um mercadinho do bairro.  “Vocês são uma vergonha, já foram presos quatro vezes só esse ano, quando vão entender que o crime não compensa?” disse ele com voz grave e cara de mau. Respirou fundo, e prosseguiu seu sermão. Sabia que não poderia fazer muita coisa, pois os dois eram menores de idade. Conheço o pai de vocês há muitos anos, e imagino a decepção dele em ver os filhos infringindo a lei e perturbando a ordem.  Os dois malandros com cara de paisagem, e ar de desdém curtiam com a cara do pobre delegado. “Solta nóis logo dotô, nóis é de menor, e a lei é crara!”  Não é fácil ser policial quando a lei é tão benevolente com esses merdas pensava o delegado. “Vocês são quantos irmãos? ” perguntou Rebouças. “Seis” respondeu um deles. “todos vivos?” insistiu o delegado. “Não, vivo é só nóis dois, os outro trabaia”.  Contendo-se para não disparar um bofetão  nos atrevidos, Rebouças acenou para o agente auxiliar que acompanhava no canto da sala. “Leve os dois para a cela, vão pelo menos dormir aqui hoje. “Passe antes pelo chuveiro”.  Levados por um comprido corredor, os dois infratores foram colocados numa pequena sala com chão de cimento rústico, onde foram encharcados com jatos de água  gelada. No dia seguinte foram encaminhados para os órgãos responsáveis pelo recolhimento de menores infratores. Em menos de cinco dias estavam de novo na rua.  Se esses casos se resumissem a pequenos furtos, brigas sem maiores consequências estaria bom. Mas o Estatuto da criança e adolescente (ECA), abre brecha para assaltos, homicídios, latrocínios e outras barbaridades cometidas por menores de dezoito anos, sem que sofram os rigores da lei. A diferença intelectual de um jovem de 16  ou de 18 anos é mínima. Não tem explicação que um sofra os rigores da lei, e o outros usufrua de perdões e benesses. Enquanto persistir esse estado de coisas, menores de idade continuarão  a ser cooptados pelas hordas do crime simplesmente para assumir responsabilidades, pois podem pegar no máximo três anos de recolhimento, livrando assim a cara dos verdadeiros autores, não importando  a violência e crueldade do caso.  só viveremos dias melhores quando for reduzida a maioridade penal, e dado maior poder e valorização aos agentes de repressão. Enquanto isso vamos convivendo aí com essa situação exdrúxula em que a polícia prende a justiça solta.

AVP/MARCO/2020

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