Almir surtou no dia de seu casamento e sumiu. Deixou uma carta em cima da cama, e pernas para que te quero. Estava de namoro firme com Dalva há quase seis anos, e há dois tinham ficado noivos. Mas, como ela não pressionava, ia levando na maciota. Agora, no entanto, a situação tinha mudado. Há cerca de um ano atrás,  o pai dela havia conversado com os dois, dizendo que aquela história estava indo longe demais. Que precisavam tomar uma decisão, pois afinal a vida é curta para tanta embromação. Dalva dando acordo de si, concordou com o pai. Precisavam resolver a situação. O sogro ainda arrematou “ou casa ou desocupa a noiva”. Alegando insegurança financeira e coisa e tal, Almir ainda conseguiu um respiro, marcaram o casamento para o ano seguinte. Agora finalmente tinha chegado o dia. – A mãe dele vinha notando uma certa inquietação no filho nos últimos dias. Estava muito calado, com olheiras, provavelmente dormindo pouco. Quis conversar a respeito mas foi rejeitada com um: “deixa pra lá mãe, é problema meu”. Então ela foi ao shopping comprar um belo vestido para o casamento do filho. Ao acordar nesta manhã preparou o café e foi chamar Almir, cadê o homem? Então encontrou a carta,  com mãos trêmulas  abriu o envelope e começou a ler. “Mãe, lamento ter esperado até hoje para te contar. Não posso me casar com Dalva apresente minhas desculpas a ela e à família dela por ter hesitado até o último dia. Nunca disse nada a você ou ao papai “que Deus o tenha” para não magoá-los. Mas, desde os treze anos anos sou atormentado por uma mulher que vive dentro de mim. Sou homem na superfície, mas por dentro existe uma garota frágil, amorosa e vulnerável. Nunca tinha me deixado dominar por ela, que vez por outra aflorava na superfície e logo voltava a submergir. Esperava que no decorrer da vida as coisas se normalizassem e o meu lado homem prevalecesse. Lutei o quanto pude, mas enfim, ela venceu. Sei que o momento é inoportuno, não devia ter chegado a esse ponto, mas enfim é preferível que Dalva sofra agora. Ela é jovem e logo terá um futuro mais seguro do que teria comigo. Lamento, sei que estou te decepcionando, mas hoje sou um vulcão em plena erupção”. Dalva quase enlouqueceu ao ser informada que não haveria casamento. O pai dela ferido em seus brios de machão não falava em outra coisa que não fosse matar, esfolar vivo, queria a todo custo “lavar a honra da filha”. Foi um  grande constrangimento. Pedidos de desculpas enviados, presentes devolvidos, prejuízos assumidos uma tristeza. Mas como sempre o tempo é o senhor da razão. Tudo foi voltando ao normal e hoje o caso está superado. Dalva está casada com o psicólogo que a atendeu depois do trauma psicológico. Têm um filhinho de dois anos, uma gracinha. Almir depois de um ano de silencio, foi encontrado morando em São Paulo, na região da rua Frei Caneca, em relacionamento estável com Fernando, um colega de trabalho.  Coisas da vida moderna.  O mundo não acabou, o dólar não disparou e histórias assim  mostram que as vezes parece que tudo vai desabar, mas felizmente as coisas sempre se acomodam, é só esperar.

 

AVP/ABRIL/2020

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