Divina correu para entrar no ônibus que as seis horas da manhã já vinha cheio e apertado como sardinhas na lata. Conseguiu passar  pela porta, espremida entre vários passageiros. Se perdesse aquele, chegaria atrasada, e Dona Selma, sua patroa, velha ranzinza e mal humorada não perdia uma chance de chamar a atenção e as vezes até humilhar os empregados. Todo dia era aquela luta, mas fazer o que? Já estava até acostumada. Era uma mulher de 27 anos, arrumadinha, solteira e sem pressa de se casar. Esgueirou-se entre os passageiros até conseguir ficar ereta e segurar num dos suportes. Entre sacolejos, gracejos, passadas de mão e as vezes sentindo duras “masculinidades” roçar-lhe o traseiro passaria uns quarenta minutos até o ponto em frente ao cemitério da Consolação, onde saltava. Ao descer a garoa fria lembrou-lhe do agasalho que não trouxera. Apressou o passo e dez minutos depois chegou ao Condomínio Véritas onde trabalhava. Saudou o porteiro rapidamente e subiu para o oitavo andar. Ia tocar a campanha quando notou que a porta estava entreaberta. Empurrou um pouco mais e chamou pela patroa. Não ouvindo nenhuma resposta, foi entrando devagar e chamando “Dona Selma…Dona Selma” nada de resposta. Chegando ao quarto, viu a patroa caída ao lado da cama, em meio a gavetas remexidas, roupas espalhadas pelo chão. A bolsa dela vazia num canto do quarto sugeria que quem fizera aquilo estava atrás de dinheiro em espécie porque as joias  também estavam espalhadas pelo chão. Divina aproximou-se da patroa e notou que havia sangue no chão junto á cabeça, mas ela estava respirando. Pálida e muito trêmula a empregada não sabia direito o que fazer. Pensou um pouco e ligou para o SAMU e depois para a polícia. Chegaram praticamente ao mesmo tempo. Os policiais fotografaram o quarto enquanto os paramédicos levavam Dona Selma para o hospital. Divina foi chamada para a sala e aí foi interrogada pelos agentes que queriam detalhes. A princípio não descartavam nada. Ela chegou a pensar pelas perguntas dos policiais que estava sendo tratada como suspeita. Repetiu várias vezes o horário que chegara, que tinha cumprimentado o porteiro e quando chegou ao apartamento encontrou aquele estrago todo e Dona Selma ferida. Depois de liberada, se preparava para voltar para casa quando se lembrou de um fato que podia ser relevante. Foi até os policiais que ainda faziam alguns levantamentos no apartamento e narrou que a senhora tinha recebido há uns dois meses a visita de um neto que ficou dois dias no apartamento. Segundo ela, ele só aparecia quando precisava de alguma coisa. Vivia em local incerto, e não trabalhava. A avó  suspeitava que era usuário de drogas. Foram analisar as câmeras  e descobriram que o rapaz tinha visitado a avó na noite anterior. Quando pôde ser ouvida, ainda no Hospital, Dona Selma saiu em defesa do neto. Revelou que ele havia chegado sob o efeito de drogas, e a pressionara por dinheiro. Como insistiu que não tinha, foi agredida com um castiçal e perdeu a consciência. “Mas ele é um bom menino, não sabia o que estava fazendo). Quando foi para casa conferiu seus pertences, e descobriu que o neto havia levado seiscentos reais de sua bolsa. Ela já sabia o destino dinheiro: compra de drogas “coitadinho”. A criança tinha 23 anos. – Divina naquele dia ao voltar para casa, sentiu uma onda de euforia tomar conta de seu coração. Seus problemas não eram nada, comparados ao daquela patroa ranzinza e prepotente. Quando tiver filhos fará o possível para que não se disvirtuem pelo caminho do mal. Irá amá-los, protege-los e estar sempre disponível para eles. Como fará isso não se sabe, tendo que trabalhar tanto, mas é um pensamento construtivo.

 

AVP-MAIO/2020

1 Comentário

  1. Parabéns! Gosto muito de cronicas, principalmente, das bem elaboradas,
    redigidas com clareza, sem sofisticação de palavras pouco usadas.
    Também gosto de escrever alguma coisa, seja crônicas ou poemas, publicando os novos e antigos quando ainda adolescente, publicados em meu Facebook e no blog
    José Maurilio Boaventura

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