QUESTÃO DE FÉ

             A garotinha agarrou a boneca, queria leva-la a qualquer custo. A mãe, com o coração apertado, puxou a criança para si e disse baixinho “filha, não temos dinheiro, o que temos só dá para comprar um pouco de comida, mas a mamãe vai trabalhar mais, e até no natal a gente compra tá bom?”. Lágrimas silenciosas molharam  o rosto das duas, enquanto se dirigiam para a seção de alimentos. – Primeiro Janete perdera o marido num deslizamento de terras quando ele, contrariando a defesa civil,  tentou voltar à casa para pegar pelo menos os documentos. Caiu com casa e tudo. Morando de favor em dois pequenos cômodos no lote da sogra, Janete já estava vendo uma pequena luz no fim do túnel. Trabalhava numa confecção de roupas íntimas em Jacarepaguá. Dizem que raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Pois é, caiu. A empresa faliu e Janete acumulou os dois cargos: viúva e desempregada. Tinha tudo para se desesperar. Foi à igreja no domingo a noite, só mesmo por força do hábito pois já estava duvidando de Deus. Sentou-se ao lado de uma senhora de vestido branco e sorriso simpático. Ao perceber que Janete chorava, a senhora aproximou-se mais e abraçou-a. Janete sentiu um conforto imenso naquele abraço que se prolongou por vários minutos em silêncio. Ao final da  celebração começaram a conversar, Janete aproveitou para contar sua história e desabafar um pouco. A Senhora a ouviu com paciência então foram embora. Uma pensando numa maneira de ajudar, e a outra mais aliviada por dividir com alguém o seu infortúnio. Uma não pediu nada, nem a outra ofereceu. No domingo seguinte voltaram a se encontrar e a senhora propôs a ela fazerem doces para vender. Janete a princípio não se entusiasmou porque de cara tinha dois problemas: não tinha dinheiro, e não sabia fazer doces. Não tem problema disse a senhora vou entrar com um pequeno capital de 300 reais, e te ensino a fazer os doces e aí, vendemos e assim que recuperar meu capital, continuaremos a fazer os doces e daí em diante dividiremos os lucros, certo? E ali teve início uma pequena sociedade, baseada na pura confiança. Vendiam doces de porta em porta, e como eram deliciosos não demorou para fazerem uma boa freguesia. Cerca de dois meses depois, a senhora retirou de volta o seu dinheiro, e sumiu da igreja. Na última vez que estiveram juntas, a senhora dobrou o xale que usava e deu de presente a Janete. Algum tempo depois, quando resolveu usar o xale que ganhara da misteriosa amiga, encontrou um bilhete alinhavado nele; – “Agora é com você, continue fazendo e vendendo os doces. Minha parte nos lucros, vá acumulando para ajudar outras pessoas. É assim que se propaga a corrente do bem”. – Janete nunca mais a viu. Quando se aproximou o Natal daquele ano, com o coração radiante, voltou ao shopping, e comprou a boneca para a filha. – Recuperou sua fé, e aprendeu como agem os anjos. O autor não deu nome à “senhora” de propósito. Anjos não têm nome, são só anjos. Qualquer ser humano ter potencial para sem um anjo na vida de outro, é só querer.

 

AVP-ABRIL/2020

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