A professora Julieta tinha a aparência de uma vovó bondosa. Tinha um sorriso afetuoso e tratava todos os alunos por “meu filho” pois tinha dificuldades em guardar os nomes. Tinha por baixo uns 70 anos. Já podia estar aposentada há tempos, mas continuava por opção a dar aulas de desenho artístico na Escola Técnica de Goiânia. Era uma escola federal, de cunho profissionalizante. Ao final do curso ginasial o aluno saía com conhecimentos razoáveis na profissão que escolhesse. Todos os cursos eram técnicos. Ali só estudavam meninos e os cursos eram: Gráfica e tipografia, Instalações elétricas, Tornearia mecânica, fundição, marcenaria, e radiotécnico. Não era muito compreensível um curso de desenho artístico na grade curricular da escola. Mas como a professora já estava lá há quase quarenta anos é provável que a direção a conservasse quase que por tradição, e não pela relevância da matéria. O fato é que a matéria existia e eu estava em apuros com ela, pois não tinha nenhuma afinidade com aquelas gregas e rosáceas que ela nos ensinava a desenhar. Ficava depois da aula, a professora me ajudava, mas não tinha jeito, o meu rendimento era muito ruim e eu estava em vias de tomar bomba. No dia da prova final, não consegui executar nenhum dos desenhos a contento, e fiquei de segunda chamada. A  mestra Julieta (assim a chamávamos), veio conversar comigo com aquela meiguice da qual tenho saudades até hoje e me disse: “meu filho, eu tenho plena consciência de que essa matéria que leciono não tem grande importância para esses cursos técnicos que a escola oferece. Saber nunca é demais, mais vocês terão muito pouca utilidade para os conhecimentos que transmito em suas vidas profissionais. Portanto, você leve estes quatro desenhos para estudar nas férias, e no dia da prova de segunda chamada, em fevereiro, você traz eles prontos para mim e terá a nota para passar de ano”. Agradecido e emocionado com a sinceridade dela fui embora já me considerando aprovado. Treinei os quatro desenhos até ficarem impecáveis. Repeti umas vinte vezes cada um ate me convencer de que estavam ótimos. – No dia 11 de fevereiro voltei à escola despreocupado, ia só entregar os desenhos e receber a nota. Isso era o que eu pensava, mas o acaso não concordou comigo. Ao chegar, me deparei com um homem de aproximadamente uns 30 anos, sentado na mesa da professora. Suas roupas um pouco exóticas para homens daquela época chamavam a atenção. Cumprimentei-o com cortesia, e perguntei se a Mestra Julieta iria demorar. Ele ficou surpreso com a pergunta, me olhou por alguns instantes, depois juntando as mãos disse “coitadinho, não está sabendo. A mestra Julieta morreu queridinho. Eu estou aqui para dar a prova no lugar dela”. Levei um susto, pois nunca esperava aquilo. Olhei no quadro negro e já estavam lá os desenhos a serem executados, nada a ver com os quatro que eu tinha prontos. Não quis revelar o segredo do meu acordo com a falecida mestra. Sentei e tentei fazer os desenhos. Resultado, minha nota foi 3,5 e tive que repetir o ano por causa de uma matéria que até hoje não senti a mínima falta em minha vida profissional. Nem como torneiro mecânico, nem como médico, nem como coisa nenhuma. Repeti o ano, e não repeti a matéria pois com a morte da professora foi retirada do currículo. Pensem numa falta de sorte.

 

AVP-JUNHO/2020

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