O homem chegou sozinho e adentrou o lupanar por volta das onze da noite,  entregando-se aos folguedos libidinosos com as mariposas ali presentes. Beijava uma, fornicava a outra sentindo-se no melhor dos mundos. Entretido com os prazeres da carne, não percebeu a entrada de um mulato alto e magro, jagunço de Joaquim Novato, o fazendeiro cuja amante havia importunado dias antes. Só percebeu quando a arma já estava apontada para ele. Enquanto murmurava “meu Deus!” o homem  desferiu-lhe quatro tiros no peito. Aumentando o grau de requinte, o jagunço ainda abaixou-se e completou o serviço  com o tiro de misericórdia entre os olhos do infeliz. Foi prostituta correndo para tudo o que é lado, todas gritando o “Meu Deus, meu Deus“. Creusona, a dona da casa, entrou na sala gritando “valha-me Deus!“. É curioso como o nome de Deus é invocado a qualquer hora, em qualquer lugar, desde que a coisa aperte. Se estiver tudo bem poucos se lembram dele, mas se coisa fica feia e o perigo entra em cena é o primeiro nome que gritam. Chegaram dois soldados apressados  e começaram a isolar a área do crime. Logo depois chegou o delegado esbaforido. A delegacia era perto, veio a pé mesmo. “O que aconteceu aqui?” perguntou ele. Creusona choramingando reclamou: “esse infeliz entrou aqui para acabar com o meu movimento, logo hoje que é sábado. Posso fechar. As meninas não vão mais querer trabalhar depois de um susto desses, estão lá dentro chorando e pedindo proteção a Deus“. O delegado não pôde deixar de perceber que mesmo diante da gravidade do fato, a cafetina só estava pensando em seus “negócios”.  – “Cala a boca Creusona. Não é possível que você só pense em negócios. Você não tem coração? Nem parece filha de Deus.”. Respirando fundo a dona do cabaré respondeu: “coração eu tenho doutor, eu não tenho é dinheiro para pagar as contas. mas se Deus me ajudar…”. Pronto lá estava o nome de Deus de novo. O cadáver de cara para cima tinha um curioso ar de riso, talvez pela natureza exótica da cena. Quem fez isso Creusona?” perguntou em tom grave o delegado. “só Deus sabe doutor eu estava tomando banho e não vi”. –  “Fui eu” respondeu o homem sentado na mureta do alpendre da casa. Ninguém tinha notado que não fora embora. “Estou esperando para me entregar à justiça e a Deus. Este foi o meu último “trabalho”. Alguém avisou o padre que tinha uma alma para encomendar no cabaré. A princípio falou: “Eu não ponho meus pés naquele lugar” mais foi convencido por algumas beatas de que deveria ir, afinal era um pobre filho de Deus. Então mudou de idéia e disse: “Oh Deus, me dê forças para entrar naquele antro de perdição”. E foi, mesmo a contragosto. Chegou quando o delegado saía para providenciar a remoção do corpo, levando o assassino pelo braço. Fez ali seu rapidíssimo rito religioso e também foi embora. Neste texto trágico pudemos observar o nome de Deus sendo invocado diversas vezes, num ambiente fortemente degradado o que vem a ilustrar que não importam o local, as circunstancias as pessoas sempre procuram o Porto Seguro. – Em contrapartida poucos se  lembram dele para expressar gratidão. Mas apertou, é batata! “Valha-me Deus!”

AVP-16/06/2020

 

 

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