Nascido no agreste Alagoano, Raul, um menino de oito anos era feliz ali. Nascera numa pequena casa à beira de um açude, feito para ajudar a suportar os rigores da seca que as vezes se abatia sobre sobre aquela região. Adorava aquela vida livre. Por isso, quando o pai deu notícia que se mudariam para São Paulo, sentiu uma tristeza profunda, e um sentimento de medo. As crianças vivem num mundo particular lá delas, cheio de fantasias e de facilidades a granel. Não compreendem as decisões que as vezes são tomadas pelos pais. Ficou amuado, caladão nas duas semanas que antecederam a partida. Na véspera, passou o dia se despedindo das coisas que lhe eram caras.  Deu o último mergulho no açude e colocou todo aquele mundo num baú imaginário que levaria consigo para sempre. Despediu-se dos amiguinhos e preparou-se para a partida. Naquela noite, pensando que nunca mais voltaria ali, chorou baixinho até adormecer. Ainda antes do nascer do sol começaram a jornada rumo ao sul.

            Teve uma imensa surpresa com o tamanho da cidade. O movimento das ruas, os grandes arranha-céus, o metrô foram grandes novidades para ele. Foram morar numa região pobre da cidade, o Jardim Irene em um pequeno barracão. O pai avisou que seria por pouco tempo até que começasse a trabalhar e ganhar dinheiro. Foi a primeira promessa que Raul viu o pai fazer e não cumprir. Não dependia só dele mas ele ainda não sabia disso, viveriam ali por longos doze anos. Numa escola pública do bairro o garoto se acostumou logo. A maioria dos alunos eram filhos de migrantes nordestinos e tinham o mesmo sotaque engraçado que ele. Não houve bullying. Com o pai trabalhando na construção civil, e a mãe de empregada doméstica, o garoto voltava da escola e ficava só. Preocupado com a possibilidade do filho se desviar para o caminho do mal, o pai conseguiu com seu Ribamar, um conterrâneo, que tinha uma pequena oficina de marcenaria e conserto móveis, que o garoto ali permanecesse após a escola, aprendendo o ofício. Inteligente, Raul agora com com pouco mais de 10 anos voltava da escola e ia direto para a oficina onde em pouco tempo se mostrou um aprendiz esforçado e determinado. Foi convidado muitas vezes pelos pivetes do bairro a participar de seus diversos grupos que na verdade eram pequenas “gangs” responsáveis por furtos, perturbação da ordem, e alguns deles vinculados aos “patrões” como chamavam os traficantes de drogas. Como tinha seu tempo ocupado com coisas úteis, Raul foi se desviando daquelas pseudo amizades. Seu Ribamar lhe pagava uma ajuda de custo pequena, mas o suficiente para se sentir independente e principalmente para entender a importância do binômio trabalho/recompensa. Nunca foi um aficcionado pelos estudos. Não tinha preguiça, mais seu rendimento era pouco mais que modesto. O pai percebendo isso, reconheceu que não teria como forçar o filho e conformou-se de que não teria um “doutor” na família. Em compensação no trabalho tinha um desempenho invejável. Em pouco tempo assimilou tudo o que o Seu Ribamar lhe ensinou e acrescentou coisas que aprendeu por conta própria e com outros profissionais do ramo. Um dia o velho marceneiro resolveu aposentar-se e vendeu a oficina a seu pupilo predileto agora com dezenove anos.  Assumindo com unhas e dentes Raul a expandiu e reaparelhou especializando-se em fabricar armários para apartamentos. Hoje tem um padrão de vida classe média alta e, segundo suas próprias palavras, tudo deve ao Seu Ribamar, ao seu próprio trabalho, e ao fato de ter tido uma família sólida, com princípios e valores saudáveis. isto é que foi a base de tudo.  Seu pai analisando a trajetória do filho e com imenso orgulho diz: “O mudo não é feito só de doutores, precisa também de bons marceneiros, pedreiros, eletricistas, mecânicos”. Sempre que pode, Raul vai ao centro de tradições nordestinas para matar um pouco as saudades da terra querida onde planeja voltar no fim do ano. Até hoje tem saudades do açude.

AVP/ 19/06/2020

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.