Assim que o andaime se rompeu no décimo sétimo andar do Edifício Eldorado, Fortunato, surpreso, pois não sabia que podia voar, começou a pensar em sua trajetória de vida. Nascera na zona rural da pequena Taperoá no sertão Paraibano. Aos 18 anos começou sua saga em busca de uma vida melhor, longe daquela seca amuada e da miséria a que parecia condenado o povo daquela região. O pau-de-arara deu-lhe pernas mais longas e maiores esperanças. Já faziam agora onze anos que viera para São Paulo. A cidade grande abrigava todos os seus sonhos. Não teve tempo de passar muita fome, a solidariedade de seus conterrâneos nordestinos o poupou deste suplício. Havia ali uma rede informal de ajuda aos retirantes que chegavam. Uns ajudavam os outros. A ele ensinaram pintar paredes. Nunca se lembrara de agradecê-los mas o faria assim que pudesse, não queria parecer ingrato. Começou a trabalhar na empresa que fazia a pintura do Eldorado há 45 dias, era empresa séria, trabalhava fichado e tudo. Tinha sido indicado por Severino um amigo querido de muito tempo, e a quem também não tinha agradecido. Sou meio desligado, mas vou agradecer na próxima vez que encontra-lo.  Lembrou-se de Rosinha sua mulher,  Reginaldo, Adilson e Gorete, seus filhos. Rosinha lhe mandara uma marmita com arroz ovo e macaxeira, que seu estômago já pedia para comer. “Como já, no próximo intervalo”,  pensou. Lembrou que nunca  agradecera Rosinha por acordar de madrugada e preparar-lhe a comida. Iria fazê-lo assim que chegasse em casa. Adorava o carinho dos filhos, mas era muito durão com eles. Não podia permitir que se desviassem do caminho do bem. As vezes se sentia arrependido por ser tão severo, mas nunca se desculpara com eles, nem lhes dissera que era para o seu bem. “Vou fazer isso hoje a noite”. Pensou no Pai, que ficou acenando do batente da porta quando partiu. Foi a última vez que o viu, Também devia ter-lhe sido grato por tudo, mas isso não tinha mais jeito, o pai tinha falecido dois anos depois de sua partida. “O que terá sido feito de Socorro, terá se casado?” Tinha partido sem dizer nada a ela, rompendo um namoro de mais de ano. Foi por medo de desistir. Nunca lhe escrevera explicando nada. Agora também não o faria mais depois desse tempo todo. Continuou pensando: “Onício, será que continuava por lá? Seria algum daqueles Vaqueiros de gibão de couro?” referi-se a um amigo de infância.  “Dona Nenê que tirava um pouco da pouca farinha que tinha e fazia cuscuz para matar a fome da molecada, estaria viva ainda?. Tanta gente passou pela minha vida, tantos que não dá nem para contar”. Tantos a quem gostaria de rever e sobretudo agradecer por povoar a sua vida e ajudá-lo a seguir em frente. O filme ainda passava em sua cabeça quando o cabo de segurança que tinha esquecido de regular finalmente funcionou.  Sentiu um baque violento quando o cabo amorteceu sua queda na altura do terceiro andar, mas rompeu-se em seguida. Fortunato estatelou-se no chão. Foi como se apagasse a luz. Inconsciente foi levado ao hospital com uma perna,  quatro costelas e a bacia fraturadas, além do achatamento de uma das vértebras lombares. Foi um daqueles milagres que acontecem muito raramente. Três dias depois, quando finalmente abriu os olhos, lá estava Rosinha com aquele sorriso mágico. O destino dera-lhe outra chance, dali em diante seria um homem repleto de gratidão, e com certeza um ser humano melhor. Olhou o céu pela janela aberta e começou a agradecer a Deus, responsável pela mão invisível que o salvara…

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