“Vovô, vamos construir um prédio”, gritou meu neto de quatro anos assim que entrou pela porta da sala. Eu estava na sacada lendo um jornal, já de saco cheio com tanta notícia enfadonha, repetitiva e chata, aquilo foi um bálsamo para mim. Depois do carinhoso abraço. Começamos a planejar como seria este prédio. quantos andares, se teria piscina, área de lazer, salão de festas, o tamanho dos apartamento, e todos os detalhes. Idealizado o projeto fomos escolher o terreno. “Aqui na sala” disse ele e eu não concordei, “aqui atrapalha as pessoas e acho que a prefeitura não aprovaria”, surpreso me olhou com seus olhinhos inocentes “prefeitura?” expliquei que toda construção tem que ser aprovada pela prefeitura, é a lei. Mas o tranquilizei dizendo que me encarregaria dos detalhes burocráticos. “vovô, o que é bur, bur ?” entendi a pergunta e tentei explicar o que era burocrático numa linguagem que ele entendesse. Depois de muitas discussões e trocas de idéias decidimos que nosso prédio seria na área de serviço. Vamos escolher os materiais disse eu. Peguei várias caixas que iriam para o lixo reciclável, e começamos a empilha-las. Ele dava todos os palpites do mundo. “Não vovô, essa aí é muito grande, troca pela menor. Nossa, está ficando muito bonito o nosso prédio”.  Abri um armário e tirei uma caixa de ferramentas que pouco uso, pois não sou muito habilidoso com consertos de nada. Aí ele foi a loucura “Vovô, que beleza, vamos precisar de todas estas ferramentas!”. Espalhei tudo no chão e disse “vamos separa-las por tipo e tamanho, ajuda o vovô”  chave de fenda, chave inglesa, chave de boca, chave de roda. Junto com as ferramentas estava um sem número de parafusos, pequenas conexões hidráulicas, fita adesiva, fita isolante, fita veda rosca. Fui mostrando a utilidade de cada ferramenta, enquanto construíamos o prédio. “Aqui vamos ter que colocar uma conexão, pegue uma e me traga uma chave inglesa” prontamente ele ia mexer no meio da bagunça encontrava uma conexão qualquer e depois de tentativas e erros trazia a chave solicitada. O prédio foi ficando alto “vovô, agora vamos precisar de uma escada” abri o quartinho de despejos e peguei uma escada de alumínio. Parecia que eu tinha tudo o que ele precisava, e a construção seguia. A pilha de caixas chegou quase até o teto. Imaginamos o estacionamento, a portaria, levaríamos o Carlos porteiro para trabalhar no novo prédio pois ele era muito legal. Ele escolheu o apartamento do vovô, o dele com os pais e a irmã, o do Tio Hugo o do tio Rodrigo. Sugeri que ele escolhesse o do outro vovô para não provocar ciúmes. Traria alguns de seus amiguinhos para morar no prédio. Minha mulher avisou que o almoço estava servido e ele foi logo dizendo “agora não vovó, temos que terminar o prédio”. Levei quase meia hora para convencê-lo que os operários tinham que parar para almoçar, senão ficariam fracos e não conseguiriam terminar o serviço. “Tá bom vovô, vamos almoçar e depois terminamos o prédio”. – Depois do almoço ele dormiu e mais tarde foi embora deixando a obra inacabada, e um avô feliz da vida por ter encontrado uma nova profissão. De agora em diante, assim que ele entrar pela porta, jogo o jornal no lixo.

AVP-10/07/2020

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